Sobre o MedCine

MedCine – Histórico

O projeto MedCine surgiu em junho de 2005, quando ainda era coordenador do NAPEM o Prof. Roberto Assis Ferreira, e faz parte das estratégias de trabalho do NAPEM (Núcleo de Apoio Psicopedagógico aos Estudantes da Faculdade de Medicina da UFMG) que tem também como objetivo promover eventos culturais e discussões, sobre temas de interesse no universo médico. Através desses encontros pretende-se oferecer elementos para a vivência dos problemas comuns ou pessoais e para a inovação, na sua superação. Trabalhamos com o apoio do DAAB da Faculdade de Medicina, Assessoria de Comunicação Social (ACS), outros setores da Faculdade de Medicina e da própria Universidade Federal de Minas Gerais.

O projeto MedCine, desde a sua criação, vem sendo coordenado pelo Dr. Marco Túlio de Aquino, psiquiatra e membro de equipe técnica do NAPEM, com a participação efetiva da psicóloga Emely Vieira Salazar em toda formatação do projeto e contando com o apoio pleno da chefia e dos demais membros da equipe técnica do NAPEM na escolha dos filmes, debatedores convidados e na execução logística dos eventos mensais que ocorrem geralmente na última quarta-feira de cada mês durante todo semestre letivo. No projeto, debatedores são convidados para analisar as ideias contidas nas películas selecionadas e posteriormente o debate é aberto ao público presente. A entrada do evento é franca e a participação é livre.

Quando assumiu a coordenação do NAPEM, a professora Maria Mônica Freitas Ribeiro, resolveu manter as atividades do projeto no seu formato original considerando a relevância da atividade cultural como meta de trabalho do NAPEM.

Como toda obra artística os filmes podem ser debatidos em óticas variadas. Aproveitamos algum mote importante do filme, a visão do debatedor e o interesse da plateia para conduzirmos as discussões. Debatemos as mais variadas questões inerentes à formação médica e ao exercício profissional como, por exemplo: a relação médico-paciente, doenças clínicas graves e terminais, doenças mentais, o uso de drogas, as relações humanas, políticas de saúde, exclusões sociais, perdas, morte, relações familiares intrincadas, envelhecimento humano, entre outros. Nossa opinião é que a medicina, como uma Ciência da Saúde, deve dialogar com as ciências humanas e com as artes em geral como uma forma de entender um pouco melhor a complexidade do ser humano. Como os filmes não foram criados originalmente com propósitos didáticos ou acadêmicos, muitas vezes alguns aspectos de patologias abordadas pelos cineastas podem ser feitas de forma distorcida ou equivocada e não tão fiel ao que realmente ocorre no cotidiano do paciente. Quando a falha é percebida, é apontada, tornando-se também uma fonte valiosa de discussão. O cinema (a arte em geral), exerce um forte apelo emocional, desperta grande interesse natural nos alunos e pode servir muito bem para trazer à tona a discussão de temas importantes para a comunidade acadêmica.

Blasco e cols. (2005), consideram que o cinema é particularmente útil para educar a afetividade do estudante. Educar as emoções requer estratégias inovadoras modernas que vão ao encontro das necessidades do estudante. O processo vai além do ensino teórico de atitudes para, utilizando a cultura da emoção e da imagem na qual o estudante está imerso, promover a reflexão vital. A abordagem metodológica trabalha as emoções do estudante como ponto de partida para, através de grupos de reflexão, possibilitar a construção de conceitos na relação médico-paciente e criar o hábito da reflexão habitual que pode ser transportada para as atividades do cotidiano. O objetivo deste aprendizado é promover no futuro médico o exercício da reflexão, base do compromisso vocacional profissional. A arte facilita a compreensão das emoções humanas e das atitudes do paciente perante a doença, ajudando o médico a cuidar do paciente da melhor maneira que ele precisa naquele momento. Sua incorporação na educação médica tem como objetivo educacional primordial despertar atitudes e valores, muitas vezes inesperados nos próprios estudantes, que estarão em função da escala de valores, da educação e da maturidade que cada um possua.

Não existe nestas iniciativas nada que possa ser interpretado como artificial ou mesmo como diletantismo, já que os próprios estudantes acusam falhas em seu processo de formação, mostrando-se particularmente receptivos a projetos desta índole. Criar o hábito de pensar e mostrar um caminho para a reflexão permanente são objetivos comuns de todas estas iniciativas humanísticas no processo de educação médica.

A literatura, o teatro, a poesia, a ópera e as artes em geral compõem o mosaico de recursos que os educadores utilizam, em atitude verdadeiramente humanista.

O cinema como arte que conta história – tal qual o teatro, a literatura, a ópera –  tem papel de suprir experiências que nem todos podem vivenciar e assim faz sua aparição como um recurso humanístico também possível na educação médica. É deste modo que se pode produzir o que Aristóteles denominava catarse (purificação), caminho obrigatório no pensamento grego para chegar ao reconhecimento do belo, do pulchrum. Sem dúvida, o mais catártico é a realidade vivida; mas as histórias de vida, quando bem colocadas, têm um importante papel.

Com acerto e profundidade filosófica, Julián Marías tece um amplo comentário sobre a função educadora do cinema no século 20, fazendo notar que o cinema aumenta as possibilidades do concreto, das vivências, que em cada pessoa se encontram reduzidas a um pequeno repertório de experiências reais. O cinema aumenta a possibilidade de ver e de ouvir. Aristóteles dizia que os homens desejam as percepções, e, sem dúvida, o cinema multiplicou notavelmente esta possibilidade. É como um aumento de opções para a catarse emotiva.

O cinema surge, assim, como uma metodologia inovadora que pode colaborar eficazmente na formação humanística do futuro médico: um médico que não terá mais remédio que ser humanista se pretende estar à altura das responsabilidades que a sociedade lhe exige. Um médico que conseguirá no seu cotidiano ser humanista, porque vê o paciente como pessoa, considera seu entorno social e psicológico, tem sensibilidade, afeto e ética desenvolvidos, e demonstra cordialidade com o enfermo. Um médico que sabe viver, na prática e no dia-a-dia, a ciência e a arte da medicina.

(Texto elaborado por Marco Túlio de Aquino Psiquiatra – Membro da Equipe Técnica do Napem e Coordenador do MedCine)

 

 O cinema como estratégia de formação crítica e lazer

A experiência do MedCine

O projeto MedCine se apresenta como espaço de lazer, convívio e conversa aberto à comunidade, e apoiado na exibição de filmes. Seu objetivo é trazer para o debate as realizações cinematográficas que, de uma forma ampla, interessam a formação no campo da saúde.  É uma atividade cultural gratuita que, desde 2012, se encontra inscrita como um projeto de extensão da Faculdade de Medicina. Com a criação do MedCine, o NAPEM visava dar consecução a um de seus objetivos, o de desenvolver atividades culturais que abordassem de “forma direta ou indireta os problemas emocionais relacionados aos cursos ministrados pela Faculdade de Medicina”[1].  Após a exibição do filme, um debatedor convidado discorre sobre alguns aspectos do filme e orienta o início da discussão pela plateia.

Ao longo dos últimos onze anos, a equipe de coordenação do NAPEM, associada a um grupo interessado no MedCine, tem mantido sessões mensais, sempre na última quarta-feira do mês. Professores de diferentes áreas (médicos, psicólogos, sociólogos, psiquiatras) – e alunos representantes da comunidade discente participam do grupo. A escolha dos filmes e das temáticas resulta de um processo de discussão constante na equipe, atenta aos interesses e acontecimentos da vida acadêmica, ao momento social e também às sugestões do público externo, que são coletadas em cada sessão do projeto.

A proposta do projeto surgiu apoiada na constatação de dificuldades no cotidiano dos alunos e na necessidade de abordá-las de algum modo mais ativo. Tais dificuldades envolvem questões que vão desde aspectos de saúde mental, tanto própria como dos outros, e questionamentos sobre as incertezas inerentes à prática clínica, até o desafio de lidar com o sofrimento humano e com as questões éticas nisso envolvidas. Essas dificuldades se apresentam num contexto onde há um predomínio de relações de competição entre pares e de reações de isolamento que parecem em nada favorecer a superação dessa realidade.

O cinema foi então escolhido como estratégia que oferece aos interessados um estímulo para reflexão e exercício da sensibilidade para lidar com questões humanas, conflituosas ou, de toda forma, pouco abordáveis de modo padronizado. O diferencial desse recurso artístico é seu potencial em convocar afetos, identificações e aversões, contextualizando acontecimentos e motivando o questionamento de posições e julgamentos previamente concebidos. A discussão crítica sobre os filmes propicia a troca de experiências, a formação de opiniões e o exercício da criatividade do público ao interpretar uma história que é contada a partir da narrativa dos filmes. Neles, há uma ilustração de situações de vida sempre a partir de um recorte, mas que podem ser interpretadas de modos diversos, de acordo com as vivências de cada pessoa.

 

As escolhas de filmes durante a evolução do projeto

Ao longo dos onze anos de existência, desde 2005, o MedCine exibiu aproximadamente cem filmes, convidando a cada sessão um ou mais debatedores com a função de introduzir e motivar o debate.

Inicialmente, a intenção do grupo reunido em torno do MedCine era de criar um espaço de descontração e convívio, onde se pudesse conversar livremente sem se limitar aos assuntos estritos de uma formação acadêmica. No entanto, ao observar a lista dos filmes exibidos, nota-se que não se tratavam de escolhas arbitrárias. Desde o princípio, houve um direcionamento da seleção de filmes por interferência do espaço da Faculdade de Medicina e do vínculo dos componentes do grupo com as questões do campo da saúde.

Nota-se que as temáticas mais contempladas até hoje se inscrevem no campo da saúde mental e no da relação médico-paciente. Entretanto, outros temas também receberam destaque, dentre eles: os conflitos familiares e relacionais, preconceitos, morte, competição, violência e consumo de drogas. (Tabela 1. – em anexo). Além dos temas contemplados isoladamente, também já foram feitas abordagens conjuntas e especiais em torno de eixos temáticos, de modo que quatro filmes em um mesmo semestre foram escolhidos com base em um assunto comum. Dentre elas, destacam-se dois eixos temáticos: “Morte e o processo de morrer”, discutido a partir de quatro grandes filmes: “A partida”; “Elena”; “O quarto do filho” e “Crônica de uma morte ignorada”; e “Relação com o diferente”. Este foi trabalhado a partir da exibição dos filmes: “Um conto chinês”; “A excêntrica família de Antônia”; “Acusados” e “A liberdade é azul”.

A escolha dos debatedores também acontece de modo articulado a essas preocupações, buscando contato com pessoas ou grupos envolvidos em atividades correlatas, de modo a estabelecer parcerias. Com isso, as ações desenvolvidas pelos convidados são valorizadas e há um enriquecimento do debate com o conteúdo de suas vivências. Desse modo, conseguiu-se uma ampliação do público das sessões, em decorrência do vínculo de interesse do público pelos temas quando associados a área de atuação dos diversos debatedores.

Destacamos, nesse sentido, os convites feitos: ao Coletivo de Mulheres Alzira Reis – criado por estudantes do Campus Saúde da UFMG – para o debate da questão do feminino em torno do filme “Acusados”; ao Projeto Comunica – uma atividade de extensão universitária da UFMG – para o debate da questão da surdez em torno do filme ” A Família Bellier”; aos profissionais da saúde mental de diversas orientações, para a discussão de filmes como “Bicho de Sete cabeças”, “Réquiem para um sonho”, “Uma mente brilhante”, “Bem-me-quer Mal-me-quer”, dentre tantos outros.

Ainda sobre a seleção temática dos filmes, a equipe do NAPEM adotou uma nova estratégia que vem sendo praticada desde 2014. Como forma de aproximação dos estudantes de medicina desde o momento de sua chegada na Universidade, o NAPEM passou a agendar a primeira sessão semestral do MedCine para a semana de início das aulas, inserindo-a na programação das atividades do evento da Semana de Recepção de Calouros, promovida semestralmente pelo Diretório Acadêmico Alfredo Balena (DAAB). Deste modo, o projeto passou a ser apresentado aos estudantes, desde sua chegada, fazendo-os conhecer esta oportunidade de lazer e reflexão existente na faculdade. Os filmes já trabalhados nesta proposta foram “Janela da Alma” e “Sonhos”, ambos com a intenção de abordar a transformação humana ao longo dos ciclos da vida, as relações interpessoais e a ampliação de perspectivas pessoais quando se é inserido em uma nova realidade de vida.

 

Considerações finais

Notavelmente, o projeto MedCine ocupa um espaço de relevância no ambiente de formação acadêmica dos profissionais de saúde da Faculdade de Medicina da UFMG. Funcionando, há onze anos, como uma oportunidade institucional interna de espaço para lazer, convívio e reflexão – três quesitos tão relevantes para o bem-estar do estudante enquanto sujeito social – além de ser um momento que valoriza a discussão de questões humanas tão comuns e complexas, que costumam ser tão pouco trabalhadas de modo efetivo e direcionado no cotidiano da formação acadêmica.

Em 2017 a participação no MedCine foi reconhecida como atividade complementar geradora de créditos pelo Colegiado de Graduação em Medicina.

(Texto produzido por Jéssica Arantes, monitora do Projeto MedCine, com orientação das Professoras Maria Bernadete Carvalho e Maria Mônica Freitas Ribeiro)

[1]Regimento do NAPEM, Artigo 3.1.

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