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Violência contra o idoso ainda é pouco revelada no Estado


Publicado em: Divulgação científicaExternas - 2 de outubro de 2014

Estudo da Faculdade de Medicina analisou situação da violência contra o idoso em Minas Gerais

A cada cem mil idosos, mais de 80 sofreram violência em Minas Gerais entre os anos de 2011 e 2012. Isso é o que revela as denúncias e notificações divulgadas pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificações (Sinan). Se não bastasse esse quadro, estudo de mestrado realizado junto ao Programa de Pós-Graduação em Promoção da Saúde e Prevenção da Violência, da Faculdade de Medicina da UFMG, indica casos que não foram registrados.

De acordo com a autora da pesquisa, Regina da Cunha Rocha, que também é gerente de Assistência à Saúde da Regional Oeste na Secretaria de Saúde de Belo Horizonte, as notificações e denúncias tornam públicos os eventos, mas ainda há um grande desconhecimento das formas silenciosas com as quais a sociedade convive com a violência. “O primeiro passo para o enfrentamento do problema é a compreensão e dimensionamento desse, o que exige a produção de informações fidedignas a respeito. Ainda há poucos registros, análises e estudos nessa área. Além disso outras questões influenciam no registro dos fatos como a variabilidade na forma como essa violência é percebida na sociedade e a estrutura da vigilância nas diferentes regiões de Minas Gerais”, ressalta.

A violência contra o idoso foi o último tipo de violência contemplado na política nacional, a partir do Estatuto do Idoso, de 2003. Incluída na relação de doenças e agravos de notificação compulsória, ela deve ser denunciada, quando percebida, por profissionais de saúde e estabelecimentos públicos e privados.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Minas Gerais tem quase 2,6 milhões de idosos e, só em 2012, foram denunciados 23.523 casos de violência através do Disque Direitos Humanos (Disque 100). Já as notificações no Sinan chegaram a 8.564 casos, o que revelou uma subnotificação de 64%.

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Imagem: cuidardeidosos.com.br

Estatísticas da violência

 Em Minas Gerais, entre 2011 e 2012, as denúncias revelaram que 90% das agressões ocorreram no domicílio. Já as notificações de violência passaram de 25 para 52 por cem mil idosos e seguem o padrão das denúncias: 85% das vítimas são agredidas em casa, sendo que 57% são mulheres e 31% têm como agressores os próprios filhos.

A análise de dados mostrou que homens idosos sofrem mais violências autoprovocadas, físicas e torturas, enquanto a maioria das mulheres é vítima de violência psicológica, sexual e financeira. Além disso, a violência física e negligência são predominantes em idosos com idade entre 60 e 79 anos. Já a violência psicológica e a financeira estavam associadas às pessoas a partir dos 80 anos.

Sobre o incremento no número de lesões autoprovocadas pelos homens no início da velhice, Regina Rocha comenta: “Essa tentativa de uma morte autoinfligida revela que o envelhecimento e a doença fragilizam o modelo de masculinidade predominante”. Segundo ela, esses homens tendem a se sentir ausentes da sociedade, já que não têm mais o status que o trabalho ou o emprego conferem.

 Nas notificações realizadas nos serviços de saúde em 2012, a violência física teve maior prevalência, seguida da psicológica e da negligência. “Possivelmente pelo fato de a violência física ser o tipo mais fácil de ser detectado pelos profissionais e de maior demanda nos serviços de saúde”, explica a autora do estudo. O consumo de bebidas alcoólicas é outro fator de risco ligado a esse tipo de violência.

Busca por dados é complexa

A busca por dados de violência contra o idoso se mostrou difícil. As bases de informações possuem variáveis diferentes e há um sub-registro das ocorrências. “O idoso não denuncia, porque teme por represálias do agressor e, mesmo que os serviços recebam as denúncias e encaminhem aos órgãos competentes, muitos casos terminam sem solução. Há uma grande desvalorização cultural dos registros nas instituições, imprimindo aos idosos mais um tipo de violência, a institucional”, alerta a pesquisadora.

Em situações de violência, é importante a ação combinada da família e do poder público. “Nem sempre a família está preparada para lidar com um idoso frágil, doente, que necessita de cuidados maiores, sendo importante não culpabilizá-la, mas fornecer apoio institucional por meio de uma rede de cuidados”, defende Regina.

Segundo a autora, são poucas as instituições públicas de longa permanência para idosos no Estado de Minas Gerais para amparar os idosos que necessitem ser abrigados. Além disso, são poucos centros de convivência para o idoso e redes de proteção, tanto para ele, quanto para o familiar. É preciso providenciar estrutura para atender às solicitações denunciadas e conscientizar idosos, família e poder público sobre a importância do resgate da cidadania da pessoa idosa.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende o envelhecimento ativo, com saúde e cidadania. Para Regina, o idoso visto como frágil, limitado e incapaz é desqualificado para gerir própria vida e faz com que o Estado assuma o papel de disciplinador de sua subjetividade. “Antes o idoso era respeitado, sábio. Hoje, ele é considerado ultrapassado. Temos que trabalhar esses valores”, propõe.

Premiação

Inscrita no 3º Congresso Nacional de Saúde da Faculdade de Medicina da UFMG, realizado entre os dias 3 e 5 de setembro de 2014, a pesquisa foi premiada no Eixo 4 – “Multifaces da violência: realidade e enfrentamento”.

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