Faculdade de Medicina

Universidade Federal de Minas Gerais


Pesquisa mostra que violência sofrida por passageiros é um dos motivos da evasão.

Jayne Ribeiro*

 

Um estudo realizado a partir da análise de reclamações à BHTrans por usuários de ônibus mostrou a necessidade de políticas públicas mais eficientes, com o intuito de incentivar o aumento da utilização desse meio de transporte. O trabalho, do administrador, mestre em Saúde e Violência no Trânsito pela Faculdade de Medicina da UFMG e professor em segurança no trânsito, Marcos Vinicius da Silva, é pioneiro ao estudar a violência sofrida pelos passageiros de ônibus, de forma estrutural.

Marcos Vinicius: “É obrigação do poder público ofertar transporte coletivo para todos, com um valor justo, conforto e confiabilidade”. Foto: Carol Morena

Os resultados foram apresentados como dissertação de mestrado, defendida junto ao Programa de Pós Graduação em Promoção da Saúde e Prevenção da Violência da Faculdade de Medicina da UFMG. “O principal diferencial desse estudo é que ele aborda o passageiro de transporte público por ônibus. A maioria das pesquisas aborda a saúde no trânsito quanto aos acidentes em veículos particulares, portanto, que envolvem condutor, passageiros e pedestres. Dessa forma, os passageiros de transporte coletivo, que são os mais vulneráveis, são esquecidos”, explica Marcos.

Para Marcos, essas pessoas são mais vulneráveis socialmente porque, com a precariedade do transporte público, as pessoas com melhores condições financeiras migram para o transporte particular, através da aquisição de carros e motocicletas. “Isso prejudica, consideravelmente, uma parcela alta da população que não pode fazer o mesmo e depende do transporte coletivo”, alerta. Segundo ele, a redução da população que utiliza o transporte público coletivo resulta no aumento das tarifas e dos congestionamentos, por exemplo.

O administrador explica que é possível, através do estudo, visualizar uma redução significativa no número de pessoas que usam o ônibus. “O descrédito e a insegurança da população com o serviço ocasiona uma evasão dos usuários do transporte público em detrimento do particular”, analisa. Em 2002, 45% dos deslocamentos de pessoas aconteciam por meio do transporte coletivo, 26% por transporte particular. Dez anos depois, nota-se uma inversão nesse panorama: o deslocamento por transporte coletivo reduziu para 28% em 2012, enquanto, o transporte particular teve um aumento para 37% no mesmo ano. “Destaca-se neste período o crescimento de 0,9% para 4,0% do deslocamento por motocicletas”, aponta.

O estudo analisou 430 mil reclamações dos usuários de transporte público por ônibus de Belo Horizonte. As reclamações são do banco de dados da BHTrans durante o período de 2011 a 2015.

Marcos afirma que foi possível perceber a existência de 12 fatores principais que influenciam a qualidade do serviço de transporte público. No entanto, 25% das reclamações eram sobre o comportamento dos operadores do transporte coletivo, motoristas e agentes de bordo. Dessas, 51% das reclamações eram sobre o descumprimento do ponto de embarque e desembarque pelo operador e 32% eram sobre comportamentos inadequados, que incluem destratar o usuário, não dar atenção adequada a idosos e mulheres gestantes e além de direção agressiva, que provoca insegurança no passageiro. “A soma desses dois itens compõe 84% das reclamações, ou seja, lidera o problema do transporte público por ônibus”, afirma o pesquisador.

Problemas e consequências
Marcos alerta que o comportamento dos operadores não implica apenas na evasão dos usuários do transporte público, mas em uma situação muito mais complexa, pois a diminuição no número de pessoas que usam esse meio de transporte ocasiona um maior número dos congestionamentos nas metrópoles. “Em um horário de pico é possível carregar 60 pessoas com dignidade e conforto em um ônibus. Não posso garantir que todas estarão assentadas, mas o ônibus vai estar com uma lotação adequada. No entanto, quando as pessoas perdem a confiança no trabalho e há descrédito no serviço prestado, a tendência é que essas pessoas migrem para o meio particular. Então, são 60 carros a mais nas ruas”, comenta.

Além disso, ele destaca como uma consequência ainda mais grave da diminuição dos usuários do transporte público em relação ao particular: o aumento dos números de acidentados no trânsito. “Quando fazemos um estudo sobre os acidentes de trânsito temos um personagem em destaque: o motociclista. Se eu não confio no transporte público, eu vou migrar para o particular, mas se eu não tenho dinheiro para comprar um carro, então, eu vou comprar uma moto. O raciocínio é simples: uma moto é econômica e mais barata, mas também mais perigosa. E, com o aumento do número de motos e carros nas vias, há também o aumento do número de acidentes”, observa.

Para o pesquisador, o aumento do número de veículos particulares nas ruas também prejudica o meio ambiente, que sofre com o alto índice de dióxido de carbono liberado na atmosfera pelos veículos. Ele cita também a violação dos direitos do usuário. “O serviço de transporte público é regulamentado pelo município. Existe uma cartilha com os direitos e deveres dos usuários e do poder concedente do serviço, e o código do consumidor. Poucas pessoas sabem que além de poderem reclamar no órgão gestor do transporte, pelo código de defesa do consumidor, elas também podem reclamar no Procon”, comenta.

“É direito do usuário ter acessibilidade, acessar o ônibus sem ter que andar longas distancias e não ter que esperar muito tempo para embarcar. O ideal é que não ultrapasse 30 minutos” orienta. Ele afirma ainda que também é direito do usuário ter acesso ao ônibus a qualquer hora. “É inaceitável que um profissional que trabalha a noite, como um garçom, por exemplo, que sai do serviço à 1h ter que esperar até às 4h para ir para casa, porque ele não está na maioria.  É obrigação do poder público ofertar transporte coletivo para todos, com um valor justo, conforto e confiabilidade”, continua.

Promoção do transporte público
O especialista em segurança no trânsito defende a necessidade da criação de políticas públicas de incentivo ao transporte público mais eficientes. Ele acredita, que caso as empresas forneçam um serviço de confiança, digno e confortável, as pessoas irão utilizar com mais freqüência o transporte público. “A confiança no serviço é fundamental. Se o usuário confiar no transporte, ele vai pensar: eu vou sair da minha casa, e em sete minutos eu vou entrar no ônibus, pagar uma tarifa e, como retorno, ter um serviço digno e de qualidade”, afirma.

“Muitas vezes, as pessoas vão aos centros urbanos, onde elas terão dificuldade de estacionar ou pagarão estacionamentos caros. Se essas pessoas tiverem um mínimo de confiança, conforto e dignidade no transporte público, elas irão de ônibus. Com isso o número de carros nas ruas é reduzido e, assim, os congestionamentos, os acidentes e o índice de poluidores no ar. Por fim, ainda, melhora o serviço, uma vez que as vias ficariam mais livres, e o tempo dentro do transporte coletivo seria menor”, conclui.

Defesa

Tema: Problemas e desafios da mobilidade urbana- A violência vivenciada pelo passageiro no serviço de transporte público por ônibus de Belo Horizonte
Nível: Mestrado
Autor: Marcos Vinicius da Silva
Orientadora: Efigênia Ferreira e Ferreira
Programa: Promoção da Saúde e Prevenção da Violência
Defesa: 15 de julho de 2016

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*Redação: Jayne Ribeiro – estagiária de jornalismo
Edição: Mariana Pires

 

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