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Tabus e pouca orientação mantêm bandeira vermelha para maternidade precoce

São 62 adolescentes grávidas para cada grupo de mil na faixa etária entre 15 e 19 anos


    07 de outubro de 2019 - , , ,


    *Lethícia Pechim

    Apesar da queda nos números de gravidez na adolescência no Brasil, o país continua em bandeira vermelha, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). São 62 adolescentes grávidas para cada grupo de mil na faixa etária entre 15 e 19 anos. O índice é maior que a média mundial, na qual são 44 mães jovens por mil habitantes. Para especialistas, tabus em relação à sexualidade e uso de métodos contraceptivos, somados à falta de acesso a esses métodos, são alguns dos fatores para índices ainda elevados no país.

    O programa de rádio Saúde com Ciência apresenta a série “Maternidade Precoce”, que também fala sobre a importância do apoio familiar e traz relatos de jovens mães sobre essa realidade.  

    A gravidez na adolescente é um problema de saúde pública de acordo com o professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG, Augusto Brandão. Isso porque o corpo da adolescente ainda está em desenvolvimento, o que aumenta o risco de complicações como a prematuridade da criança. A gravidez precoce também traz maior risco de depressão pós-parto, eclâmpsia e pré-eclâmpsia na mãe.

    Para prevenir a jovem de uma gravidez não planejada, o professor Augusto Brandão considera ser preciso proporcionar maior acesso à informação. “Mas não adianta o adolescente estar ciente do que é um contraceptivo, como utilizá-lo se não tem acesso a ele na unidade de saúde mais próxima”, alerta.

    A gestação precoce é um problema maior justamente nos setores mais pobres da sociedade, onde há pouco acesso à informação e aos métodos contraceptivos, de acordo com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Além disso, as adolescentes não se sentem empoderadas para exigir que os parceiros encarem as responsabilidades relacionadas à vida sexual.

    O índice é de 59,1 recém-nascidos a cada 1 mil adolescentes, número 45% a cima da média da taxa mundial. Imagem: OPAS

    Por isso, para o professor Augusto Brandão, a educação sexual nas escolas, unidades de saúde e em casa, é importante para essa prevenção. Até mesmo porque, a educação sexual ajuda a derrubar tabus que impendem maior adesão aos métodos contraceptivos. Um deles, é de que mulheres que fazem uso do anticoncepcional são “mulheres da vida”.

    Augusto Brandão também alerta para o uso de estratégias pelos profissionais de saúde visando maior aceitação da família ao uso dos métodos contraceptivos. “Os profissionais podem mostrar os benefícios secundários da pílula para a adolescente, por exemplo, que além da prevenção a gravidez, melhora a oleosidade de pele, controla o fluxo, dentre outros benefícios”, orienta.

    Responsabilidade compartilhada


    Na maior parte das vezes, as consequências de uma gravidez precoce recaem sobre a mulher e seus familiares. Por isso, a professora do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, Tatiana Mourão, lembra que a prevenção não é responsabilidade somente da menina. “Educação sexual tem que ser feita tanto para meninas quando para meninos. Nossa sociedade tem que repensar e começar a colocar peso para os homens. Isso está muito ligado ao esclarecimento, porque a responsabilidade é dos dois, das duas famílias”, comenta.

    O professor Augusto Brandão também avalia que, geralmente, a sociedade julga mais o comportamento feminino, responsabilizando-o pela gravidez, e tira esta mesma culpa dos homens. O próprio mercado farmacêutico evidencia a responsabilização feminina. “A maioria dos contraceptivos é de uso principal da mulher, como as pílulas, dispositivos injetáveis e intrauterinos, mostram um conceito ultrapassado de que a prevenção é responsabilidade da mulher”, exemplifica.

    Para que o país deixe a bandeira vermelha, a professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, Ana Maria Costa, reforça a importância da conscientização e do diálogo aberto com os jovens. “É preciso que os pais se aproximem dos filhos, que a questão do acesso aos métodos esteja presente na relação dos pais e dos filhos. Adolescência é um momento de transição, da infância para a vida adulta, e as escolhas sexuais estão como um desfeche de condução”, conclui.

    Sobre o Programa de Rádio

    Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a sexta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.

    *Lethícia Pechim – estagiária de Jornalismo
    edição: Karla Scarmigliat