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Respeito aos saberes indígenas é tema de debate

Convidados da nação indígena Blackfoot, do Canadá, reforçam que o conhecimento indígena também é ciência


    15 de outubro de 2019 - , , ,


    Representantes da nação Blackfoot, do Canadá, participaram do simpósio | Foto: Carol Morena.

    A Faculdade de Medicina da UFMG concluiu nesta terça-feira, 15 de outubro, as apresentações do Simpósio Internacional de Evidências Qualitativas para Decisões. Na parte da manhã, foi constituída uma mesa-redonda para discutir a atenção primária e a saúde indígena.

    O debate foi enriquecido pela participação dos indígenas da confederação Blackfoot, do Canadá, que reafirmaram a importância do diálogo entre culturas. “A colaboração entre os sistemas de conhecimento tem poderosas consequências”, afirmou William Wadsworth, representante Blackfoot, durante a mesa redonda. Segundo ele, a perspectiva dos Blackfoot acredita na construção de pontes e entendimentos uns com os outros, de forma respeitosa.

    Chyloe Healy, irmã de William e também indígena canadense, contou como essa perspectiva sofreu diversas interrupções por parte dos colonizadores. “Através das histórias da origem e dos ensinamentos orais, nós sabemos que as Primeiras Nações e o modo de viver sempre estiveram lá, antes do contato”, afirmou.

    Para dimensionar o impacto do contato para os indígenas norte-americanos, William citou o pesquisador Blackfoot, Leroy Littlebear. “Essa perturbação resulta em estresse físico, mental e cultural. Isso, por sua vez, resulta em vulnerabilidade física e social a doenças e disfunção psicológica”, parafraseou. Como exemplo, ele elencou a exposição a doenças como o sarampo e a varíola, além da perda de território em tratados desiguais com os colonizadores.

    A pesquisadora da Universidade de Alberta, Stephanie Montesanti, explicou que a terra não é separada de quem eles são. “Ainda assim, a ciência nativa sobre agricultura foi reduzida à folclore”, lamentou. A pesquisadora não é indígena, mas tenta criar um espaço ético para o compartilhamento e respeito entre os sistemas de conhecimento, ocidentais e nativos. “Não é o nosso conhecimento para passar, é o conhecimento dos indígenas e de sua terra. Mas, universidades ainda são um privilégio para brancos”, enfatizou.

    Fotos: Carol Morena

    Além dos canadenses, também compuseram a primeira mesa-redonda do dia os professores do Departamento de Medicina Preventiva e Social, Antônio Thomaz da Matta Machado e Ulysses Panisset; o representante do Conselho Distrital de Saúde Indígena de Minas Gerais e Espírito Santo, Alexandre Pataxó; a estudante da Faculdade de Medicina e indígena, Adana Kambeba; a pesquisadora indígena, Adriana Carajá; e os representantes da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), Ricardo Angelo e Myrtô Sucupira.

    Atendendo a população indígena

    Outro foco de discussão no Simpósio foi a importância de um subsistema para atender às necessidades específicas dos indígenas. Segundo Alexandre Pataxó, são vários povos com especificidades, culturas e saberes diferentes. “Infelizmente, a política de hoje é de enfraquecimento da saúde indígena. Precisamos sensibilizar os gestores, que nem sempre entendem o indígena como um munícipe”, alertou.

    Alexandre é representante do Conselho Distrital de Saúde Indígena de Minas Gerais e Espírito Santo e reconheceu os diversos desafios no atendimento à população indígena. “Temos as distâncias geográficas, as dificuldades no atendimento qualificado para saúde mental, alcoolismo, surtos de diarreia e atendimentos de alta complexidade”, exemplificou. Apesar do momento difícil, Alexandre reforça os ganhos que a defesa da saúde indígena já trouxe.

    Segundo ele, a Sesai, criada em 2010, é uma conquista muito importante do movimento indígena. “Temos os conselhos locais, que passam as demandas para os conselhos distritais, que assim chegam à Brasília, garantindo representação nacional”, explicou.

    Alexandre Pataxó ressaltou importância da luta em defesa da saúde indígena | Foto: Carol Morena.

    Além das mesas-redondas sobre Atenção Primária e saúde indígena, o segundo dia de evento também teve palestras sobre as agentes comunitárias de saúde no mundo, o acesso e a qualidade da atenção básica no Brasil e o setor privado na Atenção Primária.

    Confira a cobertura completa do simpósio: