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Racismo traz obstáculos à pessoa com doença falciforme


Publicado em: ExternasRádio - 23 de outubro de 2015

Saúde com Ciência lembra o Dia Nacional de Luta pelos Direitos da Pessoa com Doença Falciforme nessa terça e dedica série ao tema

marca-saude-com-ciencia1Uma das doenças genéticas e hereditárias mais comuns no Brasil, a doença falciforme afeta o formato das hemácias ou glóbulos vermelhos, que carregam a hemoglobina – pigmento responsável por transportar o oxigênio dos pulmões para o corpo. A hemácia vai apresentar o aspecto de uma foice, daí o nome falciforme, o que dificulta a passagem do sangue pelos vasos e a oxigenação dos tecidos. Estudos sugerem que a alteração genética, que surgiu em regiões da África, Arábia e Índia, possibilitou a seleção natural dos indivíduos com o traço falciforme, protegendo-os da malária, infecção que dizimava milhares de pessoas.

É o que afirma o professor emérito e pesquisador do Núcleo de Ações e Pesquisa em Apoio Diagnóstico da Faculdade de Medicina da UFMG (Nupad), Marcos Borato. “Na época da escravidão, essas pessoas eram trazidas para o Brasil. Então, pela miscigenação de negros com negros, negros com brancos e negros com indígenas, o gene foi se disseminando. Atualmente, a doença está presente em todo o Brasil, mas se localiza fundamentalmente nos estados onde a escravidão foi de maior proporção”. Entre esses estados, estão Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Ter o traço falciforme não implica necessariamente em ter a doença. Mas quando homem e mulher apresentam o traço, a chance dos filhos manifestarem a doença é significativa. Os principais sintomas são dores agudas nas articulações e a anemia detectada pela palidez da pele e das mucosas. Apesar de não ter cura, existem tratamentos de acordo com o grau da doença. Um exemplo atual é o uso da hidroxiureia, medicamento que reduz as dores pelo corpo e os episódios de pneumonia.

Outras medidas profiláticas são o uso do ácido fólico e antibióticos ao recém-nascido e transfusão de sangue em situações mais graves. O diagnóstico, feito através da triagem neonatal, o teste do pezinho, é fundamental para que essas e outras decisões sejam tomadas o quanto antes, dando qualidade de vida às pessoas com doença falciforme.

Hemácia normal e falcizada. Foto: Reprodução

Hemácia normal e falcizada. Foto: Reprodução

Racismo institucional

A doença falciforme é predominante na população negra – estima-se que 95% dos indivíduos com a doença em Minas Gerais sejam negros. O fato de eles terem vindo para o Brasil como escravos, condição extinta apenas em 1888, contribui para sua marginalização. “A conjunção de pessoas que têm pouco poder econômico e, portanto, pouco poder político, junto com o preconceito de cor, há um preconceito forte contra negros e pessoas com doença falciforme”, comenta Marcos Borato.

De acordo com a presidente da Associação de Pessoas com Doença Falciforme e Talassemia do Estado de Minas Gerais (Dreminas), Maria Zenó Soares, a falta de conscientização do problema está ligada ao racismo institucional. “Sofrem racismo por ser pobre, por ser negro, por ter a doença. A discriminação de profissionais da saúde de não acreditar no nosso relato no momento de dor, principalmente nos serviços de urgência e emergência, considerando a gente como pessoas viciadas em morfina… A invisibilidade da doença falciforme se dá devido ao racismo das instituições de saúde”.

Apesar disso, Maria Zenó tem esperança de que, em breve, essas pessoas sejam incluídas socialmente, nas áreas de assistência, educação, trabalho e lazer. “Como a gente está falando de população negra, de 98% de pessoas que são beneficiadas pelo Bolsa Família, a gente está falando de pessoas de baixa renda. Quanto menos educação você tem, menos acesso aos serviços você vai ter. Então eu espero que essas políticas sejam transversalizadas para que, de fato, as pessoas com doença falciforme tenham uma qualidade de vida melhor”.

Sobre o programa de rádio

O Saúde com Ciência apresenta a série “Doença Falciforme” entre os dias 26 e 30 de outubro. O programa, produzido pela Assessoria de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG, tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. De segunda a sexta-feira às 5h, 8h e 18h, ouça na Rádio UFMG Educativa, 104,5 FM.

O programa também é veiculado em outras 168 emissoras de rádio, que estão inseridas nas macrorregiões de Minas Gerais e nos seguintes estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe, Tocantins e Massachusetts, nos Estados Unidos.

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