Apesar dos avanços, idosos de Belo Horizonte têm hábitos de vida piores que os de Nova Iorque, cidade com forte cultura do Fast Food

Embora o Brasil tenha 23,5 milhões de pessoas idosas, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país ainda não está preparado para cuidar da saúde desses indivíduos. É o que explica a terapeuta ocupacional e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG, Luciana de Souza Braga, que analisou dados do primeiro e segundo “Inquérito de Saúde da Região Metropolitana de Belo Horizonte”, realizados em 2003 e 2010, respectivamente.

“A população brasileira envelheceu muito rápido. Na França, por exemplo, essa mudança foi gradual, com mais de cem anos para adequação das políticas públicas”, conta Luciana. “Já o Brasil não teve tempo para essas adequações e isso se reflete no que é ofertado hoje para os idosos”, afirma.

Luciana analisou indicadores do envelhecimento ativo e da condição de saúde da população idosa de Belo Horizonte para verificar as tendências das desigualdades sociais em saúde. “As condições de vida e saúde da população estão melhorando, mas as desigualdades sociais persistem”, aponta.

Entre 2003 e 2010, por exemplo, a prevalência de dor nas costas e tabagismo na população adulta de Belo Horizonte diminuiu. Também houve redução nas internações hospitalares e aumento no acesso a consultas médicas. “Essa avaliação é necessária para refletirmos como as políticas públicas podem interferir no combate à desigualdade e melhorar a distribuição de recursos e o acesso a serviços”, destaca.

idosos bicicleta

Foto: reprodução/internet

Qualidade de vida varia de acordo com a posição social

Para a análise da desigualdade social na capital mineira, Luciana Braga avaliou determinantes da saúde, como fatores comportamentais, características do ambiente físico e social, além de indicadores da condição de saúde, como a morbidade e capacidade funcional. “Selecionei moradores de Belo Horizonte com 60 anos ou mais. Foram 1.149 idosos no inquérito de 2003, e 1.475 em 2010”, explica.

Para a avaliação da saúde desses indivíduos, foram consideradas 12 variáveis. Comparando as informações de 2003 e 2010, houve melhora em sete delas. “O medo de assalto e a dificuldade para obter medicamentos diminuíram 21% cada”, comenta a pesquisadora.

Luciana explica, porém, que apesar desses avanços, as desigualdades sociais permanecem. “Quando analisamos essas informações percebemos que quanto menor o nível de escolaridade, piores foram os indicadores de saúde”, acentua.

“A única variável em que houve diminuição da desigualdade social foi o medo de cair nas calçadas e/ou dificuldade para atravessar as ruas”, diz. “No medo de assalto, houve um aumento na desigualdade e as pessoas com maior escolaridade foram as que reportaram maior temor”, continua.

 Nova Iorque e BH: aprendendo políticas públicas

 Visando perceber e aprender com os indicadores de saúde de Nova Iorque, uma das cidades mais importantes e populosas do mundo, Luciana Braga os comparou com os de BH. “Nova Iorque é uma cidade muito desigual socialmente, mas conta com políticas públicas que poderiam servir como modelo para Belo Horizonte. Na verdade, uma cidade tem muito a aprender com a outra”, comenta a pesquisadora.

Para esse estudo, foram utilizados dados do “2º Inquérito de Saúde da Região Metropolitana de Belo Horizonte” e do “Community Health Survey”, conduzido em Nova Iorque, ambos de 2010.

Foram selecionados adultos acima de 50 anos, totalizando 2.740 indivíduos em Belo Horizonte e 4.669 em Nova Iorque. Nessa análise, foram considerados 15 indicadores, incluindo o desemprego, insegurança na vizinhança, tabagismo, consumo de frutas ou hortaliças, prática de atividades físicas e a autoavaliação da saúde.

“Surpreendentemente, mesmo com a cultura do Fast Food em Nova Iorque, os hábitos de vida dos idosos na cidade são melhores que em BH”, conta a autora. Segundo o estudo, moradores da cidade americana consumem mais frutas e hortaliças, praticam mais atividades físicas e ingerem menos álcool. “Nova Iorque tem uma série de políticas de incentivos para esses hábitos: a cidade tem 300 km de ciclovias e uma grande oferta de atividades físicas gratuitas ou de baixo custo”, exemplifica.

Segundo Luciana, há leis que obrigam a divulgação do valor calórico dos alimentos em cada estabelecimento comercial e proíbem o consumo aberto de álcool em vias públicas, que em conjunto com outras medidas, provavelmente contribuíram para uma melhor saúde da população.

Para a pesquisadora, BH também pode aprender com Nova Iorque iniciativas para o cuidado com os idosos. “A cidade americana tem uma série de políticas para essa população, com refeições entregues em casa e pessoas que ajudam na limpeza ou no cuidado com os indivíduos”, discorre.

Ações pela melhoria da saúde dos idosos

Luciana acredita que os resultados desse trabalho revelaram avanços significativos no envelhecimento ativo em Belo Horizonte, entre 2003 e 2010, como o aumento da confiança nas pessoas e do número de consultas, e a redução das queixas para obter medicamentos.

Mas, para enfrentar as desigualdades de saúde entre os idosos, são necessárias intervenções nos determinantes intermediários e estruturais da saúde. “Iniciativas que melhorem as condições de vida e estimulem a criação de ambientes e escolhas saudáveis são essenciais para melhoria da qualidade de vida e da saúde dos idosos em Belo Horizonte”, afirma.

 

Título: Desigualdades nos determinantes do envelhecimento ativo (Belo Horizonte, 2003-2010) e nos determinantes sociais da saúde (Belo Horizonte e New York, 2010), entre adultos mais velhos

Nível: Doutorado

Autora: Luciana de Souza Braga

Orientadora: Maria Fernanda Furtado de Lima e Costa 

Programa: Saúde Pública

Defesa: 3 de julho de 2015

    Contador de visitas: 1.409 visualizações

    Veja também: