Faculdade de Medicina

Universidade Federal de Minas Gerais


Há evidências de que a maioria dos pacientes gostaria de ser abordada sobre espiritualidade, mas, de acordo com pesquisador, é necessário que os estudante de cursos da Saúde sejam treinados adequadamente para isso

De acordo com o professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFJF, Giancarlo Lucchetti, a necessidade da conversa sobre espiritualidade com o paciente deve acontecer, principalmente, por causa das evidências de que atividades e crenças religiosas estão associadas com a saúde e com qualidade de vida. “O IBGE aponta que 93% dos brasileiros têm uma religião e 99% acreditam em Deus. Ou seja, muitos dos nossos pacientes são religiosos e gostariam que abordássemos isso. E essa crença influencia em muitos aspectos das suas vidas, inclusive nas decisões médicas”, declarou Lucchetti.

Giancarlo Lucchetti é professor da UFJF e ministrou palestra sobre a espiritualidade nas pesquisas e na clínica. Foto: Carol Morena

O professor lembrou que as pesquisas já fazem essa associação há muito tempo, mas o número de publicações científicas a respeito de ciência, religião e saúde só começaram a crescer exponencialmente na década de 1990, com destaque maior nos anos 2000. Atualmente, embora os países de língua inglesa sejam os maiores responsáveis dessas pesquisas e publicações, como Estados Unidos e Reino Unido, o Brasil tem destaque no cenário, ocupando o quinto lugar. Neste país, as pesquisas estão mais relacionadas com a psiquiatria, saúde coletiva e enfermagem, respectivamente.

Para Lucchetti, a pesquisa feita com 180 escolas de Medicina do Brasil mostra que há forte interesse dos diretores incluírem mais o assunto de espiritualidade nos cursos, potencializando, assim, ainda mais o Brasil no cenário internacional. Mesmo que apenas 4,6% das escolas tenham cursos compulsórios de saúde e espiritualidade e 5,8% tenham cursos eletivos, 53,9% dos diretores consideram o assunto muito importante.

Espiritualidade na melhoria da saúde e da qualidade de vida

Giancarlo Lucchetti afirmou que alguns estudos evidenciam a relação inversa e direta da espiritualidade com algumas questões da saúde do paciente. “Na depressão, por exemplo, 61% das pessoas com religião têm relação inversa, ou seja, quanto maior sua crença, menores os níveis de depressão”, apontou. “Aí me perguntam se tem alguma relação direta, se associação com a religião leva a ter mais depressão. Sim, pode acontecer. Principalmente quando há conflitos religiosos, como achar que Deus está punindo ou castigando. Acho que qualquer um que atuou na prática clínica já vivenciou isso alguma vez”, acrescentou.

Além de a maioria apresentar a relação inversa da religião com a depressão, ou seja, da religião beneficiar a não desenvolver o problema, isso também acontece com o suicídio (75% de chance de não tentar), ansiedade (49%) e em 86% de não fazer uso de substâncias (álcool e drogas). De 75% a 80% das evidências estão relacionadas à saúde mental, mas, em menor grau, a saúde física também tem relação. Por exemplo, quanto maior a crença, menores os níveis de colesterol ou diabetes. Por outro lado, há evidências que apontam a relação direta da religiosidade com obesidade.

Foto: Carol Morena

O outro destaque que o professor fez é sobre a religiosidade nas questões do cuidado paliativo, já que a segunda coisa mais importante para o paciente ao final da sua vida é estar em paz com Deus, depois de estar livre da dor. Foi o que apontou o questionário aplicado aos pacientes e aos médicos e familiares de pacientes que faleceram nestas condições.

“O grande questionamento é o que fazemos com isso”, indagou Giancarlo Lucchetti, que contou que, atualmente, uma das lacunas começa a ser preenchida com as formas de intervenção, como a conversa sobre espiritualidade e a indicação de grupos de apoio, por exemplo.

Treinamento para abordar sobre espiritualidade

Ainda que as pesquisas apontem que a maioria dos médicos acredita na importância de abordar a espiritualidade com os pacientes, poucos a fazem. Entre as principais barreiras para isso, está o medo de impor as próprias crenças, falta de tempo e, principalmente, falta de conhecimento e treinamento. “É por isso que enfatizamos tanto que nossos alunos devem ser treinados a abordar esse assunto, de forma neutra e consciente”, ressaltou Lucchetti.

“O que não se deve fazer de jeito nenhum é prescrever religião para não religiosos, forçar a história espiritual, coagir ou brigar por religião”, declarou o professor. Ele explica sobre um algoritmo chamado FICA para treinar os estudantes. “O F é de fé ou crença, que aborda como a pessoa se considera religiosa ou espiritualizada e como a crença ajuda a enfrentar os problemas. Se a pessoa não tiver crença, há a pergunta sobre o que dá significado a vida“, informou. O I é sobre a importância e influência da crença para o paciente. O C diz respeito às comunidades religiosas ou espirituais que podem fazer parte e dar suporte. E o A se refere à ação e tratamento, o que  médico pode fazer considerando a espiritualidade.

Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde – UFJF

O professor Giancarlo Lucchetti é cocoordenador do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde – UFJF (Nupes), fundado e coordenado há 11 anos pelo professor da UFJF e coordenador da sessão de espiritualidade e psiquiatria das associações Mundial e Brasileira de Psiquiatria, Alexander Moreira-Almeida.

De acordo com Moreira-Almeida a intenção do Núcleo é realizar pesquisa séria, rigorosa,  mais aberta e não dogmática sobre espiritualidade e saúde.  Com três linhas fundamentais de pesquisa (Epidemiologia da Religião, experiências espirituais e história e filosofia das pesquisas científicas em espiritualidade), o Nupes é um grupo interdisciplinar, com pessoas da área da Medicina, Enfermagem, Fisioterapia, Filosofia, Sociologia, Estatística e outras diversas áreas. Ele conta com participações de alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado, além de pesquisadores de pós-doutorado.

O Núcleo também tem a TV Nupes, um canal no Youtube, para divulgar, em vídeos curtos e semanais, assuntos sobre saúde e espiritualidade. Segundo Alexander Moreira-Almeida esta é uma forma de levar o conhecimento adequado sobre o assunto à população, o qual é produzido com recurso público.

Congresso Nacional de Saúde
A programação da 4ª edição do Congresso reúne mais de 10 mesas-redondas, workshops e oficinas em torno do tema “Promoção da Saúde: Interfaces, Impasses e Perspectivas”, além de três simpósios internacionais nas áreas de prática e ensino de Saúde.

O Congresso Nacional de Saúde vai até 30 de agosto de 2017, com atividades pela manhã e à tarde, divididas em três eixos temáticos e um eixo transversal. O evento conta ainda com atividades culturais, com exposições, apresentações, lançamentos de livros e intervenções durante toda a programação, que integra ainda as comemorações dos 90 anos da UFMG, celebrados em 2017.

A Secretaria executiva do 4º Congresso Nacional da Saúde atende na sala 5, no térreo  da Unidade.

Confira a programação completa na página do Congresso Nacional de Saúde.

Mais informações: 3409 8053, ou ainda pelo e-mail 4congresso@medicina.ufmg.br

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