Pesquisa identifica condições ideais para método canguru

Estudo quantifica o tempo de início e frequência da posição para benefício pleno do bebê.


    30 de abril de 2019


    Estudo quantifica o tempo de início e frequência da posição para benefício pleno do bebê

    Aylla Freitas, com Gael: interação favorece o desenvolvimento comunicativo da criança
    Aylla Freitas, com Gael: interação favorece o desenvolvimento comunicativo da criança. Carol Morena | Faculdade de Medicina da UFMG

    A maioria das pessoas já ouviu falar na posição canguru, na qual o bebê permanece “amarrado” ao corpo dos pais para um contato pele a pele. Essa posição traz diversos benefícios que já são conhecidos pela literatura científica, como o fortalecimento do vínculo entre a mãe e a criança, importante para o desenvolvimento do bebê prematuro e de baixo peso. Mas, para que o benefício seja pleno, é necessário seguir algumas regras que foram identificadas pela fonoaudióloga ­Cynthia Nunes em pesquisa inédita desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Saúde da Criança e do Adolescente, da Faculdade de Medicina da UFMG.

    O estudo mostra que, quando o bebê é colocado na posição canguru até o terceiro dia de vida, as chances de interação entre mãe e criança quase duplicam. E quanto mais tempo a criança passar longe da mãe, menor será a resposta: cada dia de atraso para o início da posição diminui 0,05 pontos no protocolo que avalia a sintonia da interação entre mãe e criança, que vai de zero a cinco pontos. Os recém-nascidos acomodados mais vezes durante o dia na posição canguru também apresentaram maior capacidade de interação.

    A interação traz benefícios também para o desenvolvimento comunicativo da criança durante a infância, com impactos para toda a vida. “Devido a fatores emocionais, sociais, hereditários e às morbidades relacionadas à prematuridade e ao baixo peso, essas crianças apresentam risco para desenvolvimento sociocomunicativo, e a posição auxilia na interação social, especialmente quando adotada antes do terceiro dia de vida e por mais vezes durante a internação”, diz Cynthia Nunes.

    Vídeos

    Para mensurar o início e a frequência da posição, a pesquisadora avaliou 144 vídeos, produzidos assim que a criança recebeu alta hospitalar e após seis meses. Tanto na alta hospitalar quanto seis meses depois, as mães foram incentivadas a interagir com os filhos por meio de brincadeiras. “Tínhamos uma direção positiva dos benefícios da posição, mas não havia uma mensuração de como a relação entre mãe e filho poderia ser influenciada pela posição canguru”, explica a pesquisadora.

    A análise das gravações seguiu os parâmetros determinados pelo Protocolo de Observação da Interação Mãe-Bebê. “Esse protocolo orienta a avaliação de aspectos como a procura de mãe e bebê um pelo outro, as respostas do bebê – se ele sorri, se ele vocaliza ou chora ou quantas vezes dirige o olhar para a mãe. Também avalia como está a sensibilidade da mãe, o envolvimento dela durante essa brincadeira. Assim, conseguimos atribuir valores às características e associar à posição canguru”, relata.

    Em mães fumantes, mesmo que passivas, as chances de interação foram menores em 0,67 ponto. “Desde pequenos, os bebês já são capazes de diferenciar cheiros, como o do leite materno, o da mãe e o da nicotina”, ela diz. A pesquisa também identificou que as mães “de segunda viagem” ou mais têm maiores chances de apresentar menor pontuação na sintonia entre a mãe e o filho. Outros estudos associam esse resultado a questões emocionais maternas, como o nível de estresse de mães preocupadas, por exemplo, com os outros filhos em casa.

    Filmagem da alta hospitalar e aos seis meses de idade. Foto: Cynthia Nunes

    De volta ao berço

    A posição canguru foi introduzida na Colômbia, na década de 1980, para enfrentar a falta de incubadoras e de atenção especializada para os bebês. Em contato pele a pele com o filho, a mãe poderia mantê-lo aquecido e amamentá-lo mais facilmente. No Brasil, a posição integra o Método Canguru, adotado nas maternidades públicas para uma atenção humanizada aos recém-nascidos de baixo peso. O método vai além da posição canguru, considerando outros aspectos como controle de luminosidade e ruído, alta hospitalar precoce em aleitamento materno e livre acesso dos pais à UTI Neonatal.

    Para Cynthia Nunes, os resultados da pesquisa são importantes para o desenvolvimento de um projeto terapêutico singular para os bebês internados. Assim, será possível prevenir problemas de interação entre a mãe e o bebê e, até mesmo, de linguagem. O Ministério da Saúde tem uma Norma de Atenção Humanizada ao Recém-Nascido de Baixo Peso, atualizada pela Portaria nº 1.683, de 12 de julho de 2007. A perspectiva é que o estudo contribua para o direcionamento e a atualização das normas.

    “A realização da posição canguru é muito barata, não requer grande estrutura. É necessária uma cadeira para a mãe sentar confortavelmente, além de capacitação da equipe. Nesse processo, a mãe não é a única responsável – a gestão hospitalar e os profissionais precisam ter interesse, sensibilidade e atenção humanizada à família do recém-nascido pré-termo. Na prática, o que a gente vê são bebês com cinco dias de vida que a mãe ainda nem tocou”, conclui a fonoaudióloga.

    Dissertação: Repercussão da posição canguru na relação mãe-criança pré-termo durante o primeiro semestre de vida
    Autora: Cynthia Ribeiro do Nascimento Nunes
    Orientadora: Maria Candida Ferrarez Bouzada Viana
    Defesa: 4 de junho de 2018, no Programa de Pós-graduação Saúde da Criança e do Adolescente

    Matéria publicada na edição do Boletim UFMG de 29/4/2019