Segundo pesquisadores, dados encontrados dois anos após o desastre em Mariana se assemelham às taxas encontradas imediatamente após os episódios de Fukushima e World Trade Center

Da esquerda para direita: Frederico Garcia, Maila de Castro; Gladston Figueiredo e Marino D’ângelo. Foto: Carol Morena

De acordo com o relatório da Pesquisa sobre a Saúde Mental das Famílias Atingidas pelo Rompimento da Barragem do Fundão em Mariana (Prismma), apresentado nesta sexta-feira, 13 de abril, na Faculdade de Medicina da UFMG, os indivíduos atingidos ainda se encontram em situação de vulnerabilidade quanto a saúde mental.

Foram avaliados 271 pessoas, de 10 a 90 anos de idade, que aceitaram participar, incluindo 46 adolescentes entre 10 e 18 anos. Entre os principais resultados, há a taxa de 63% que relatou sofrer discriminação em relação a condição de atingido. Quase 80% teve que sair da moradia com urgência e quase 70% relatou ter risco de vida durante o ocorrido. Esses são fatores de risco importantes para ao adoecimento psíquico, segundo a professora do Departamento de Saúde Mental da Faculdade, Maila de Castro, uma das coordenadoras do Prismma.

“Existe um estressor permanente, que mantem o sofrimento até hoje. Talvez a abordagem oferecida não esteja sendo eficiente para minimizar. Esperávamos que, dois anos depois do ocorrido, esses valores fossem bem menores do que encontramos”, apontou “Em outros estudos, as taxas claramente melhoram com o passar do tempo dos desastres. Por isso precisávamos saber o que está acontecendo. É preciso avaliar se as medidas atuais estão surgindo efeito e acompanhar as mudanças”, continua.

“São dois anos e meio de violação de direitos cotidianos. O ocorrido não foi só lá em 2015. Desde então, eles sofrem todos os dias. A nossa proposta foi mesmo ascender a discussão do que era visível para a gente cotidianamente”, esclareceu Gladston Figueiredo, coordenador operacional da Assessoria Técnica aos Atingidos e representante da Cáritas Regional Minas Gerais, instituição responsável pela realização do estudo junto ao Núcleo de Pesquisa e Vulnerabilidade em Saúde (Naves) da UFMG.

Dados apontam necessidade de intervenção imediata

De acordo com a professora Maila, os desastres podem exaurir a capacidade de resiliência das pessoas, de lidar com os problemas, levando a um estado de vulnerabilidade da saúde mental. “O diagnóstico de depressão foi dado em 29% da população avaliada, cinco vezes maior que a prevalência descrita pela Organização Mundial de Saúde para a população geral brasileira em 2015, a qual já é a segunda mais alta entre países americanos”, afirmou.

Além disso, 12% da população adulta preenchem critérios para o transtorno de estresse pós-traumático, o que se assemelha as taxas encontradas imediatamente após os episódios de Fukushima e World Trade Center. O transtorno de ansiedade também é três vezes maior entre os estudados (32%) do que na população geral do Brasil.

Professora Maila de Castro, coordenadora do Prismma. Foto: Carol Morena

“Além da quantidade de casos ser uma questão muito expressiva, a gente percebe a gravidade. Há uma elevada taxa de comportamento suicida. Ou seja, há grande quantidade de casos e muitos que precisam de intervenção imediata”, revelou Maila. Ela lembra que esses casos identificados com gravidade receberam os devidos encaminhamentos para tratamento.

Algumas doenças relacionadas ao estresse como dor de cabeça, tonteira, falta de ar e palpitações também tiveram piora em pelo menos 50% da população. Além disso, mais da metade dos entrevistados (52%) relataram problemas com o sono.

A coordenadora do Prismma acentuou que as crianças e adolescentes são um grupo ainda mais vulnerável, já que eventos traumáticos na infância podem repercutir na vida adulta. “As consequências em longo prazo podem sinalizar morbidades. Por isso é necessário programar politicas publicas longitudinais para acompanhá-las”, explicou Maila.

Dentro desse público em questão, 83% apresentou sintomas de transtorno de estresse pós-traumático. O rastreio positivo para depressão e transtorno de ansiedade ocorreu em 39%. E 26% exibiram pensamentos de morte, “mostrando, mais uma vez, a gravidade dos casos”. “Não podemos apontar a causalidade, porque o estudo começou só depois do desastre, mas temos que falar da grande vulnerabilidade em que essas ela se encontram”, ressaltou.

É necessário medidas preventivas, de tratamento e contínuas

Tornar a pesquisa pública, para Maila de Castro, é importante no trabalho de sensibilizar quanto ao que esta acontecendo com a população dos atingidos. “Estudos após os desastres são importantes para mostrar como a população está e conseguir que as políticas públicas sejam direcionadas e individualizadas a essas populações, estabelecendo programas de intervenção adaptados à realidade atual delas”, comentou.

Professor Frederico Garcia, coordenador do Prismma. Foto: Carol Morena

“Esperamos que esse estudo possa ajudar as instituições públicas a tomarem medidas para minimizarem os impactos, para tratar as pessoas e prevenir novos casos. E esperamos que sejam medidas longitudinais”, defendeu Maila. “Essa foi uma tentativa de materializar o imaterial. Quando se fala de uma tragédia como essa, temos que pensar nas relações pessoais que construíram durante tantos anos, o apoio social e a segurança que perderam com a lama”, lembrou o também professor do Departamento e coordenador do Prisma, Frederico Garcia.

“Ao tirar o papel social e perder essa identidade social, como a pesquisa mostrou, de alguma forma produz a diminuição da capacidade de resiliência e tem o adoecimento mental como consequência”, informou Garcia. Ele citou que o relatório também pode servir de apoio para elaboração de diferentes medidas para futuros desastres, já que essa era apenas uma das muitas minas que o estado apresenta e uma das possibilidades de ocorrências em que se precisa ter ações planejadas, tanto indenizatórias como para o cuidado da saúde.

“A partir da divulgação desse estudo, primeiramente faremos a articulação com o governo local em relação ao atendimento, como acesso emergencial ao SUS, de acordo com a gravidade dos dados que temos”, completou Gladston Figueiredo. Segundo ele, a Caritas, que faz assessoria aos atingidos, encomendou o estudo de acordo com a demanda recebida, em busca de um produto para subsidiar os processos por quais os atingidos estão enfrentando, incluindo a luta por políticas públicas.

Acesse o relatório aqui.

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