Esta foi a ideia defendida pelos pesquisadores franceses que encerraram a programação do Congresso, debatendo sobre a forma como a França, um dos países europeus com maior número de jovens jihadistas, lida com a violência em suas periferias

A violência no meio dos jovens de periferias francesas e a relação do terrorismo com a negação de suas identidades na sociedade foram assuntos abordados na última atividade do 4º Congresso Nacional de Saúde, nesta quarta-feira, 30 de agosto, na Faculdade de Medicina da UFMG.

A jurista Zohra Harrach Ndiaye apresentou o Sauvegarde, dispositivo francês de enfrentamento a radicalização. Foto: Carol Morena

Mediado pelos professores Cristiane Freitas Grillo, do Departamento de Pediatria, e Ulysses de Barros Panisset, do Departamento de Medicina Preventiva e Social (MPS) da Faculdade, o debate contou com participação de pesquisadores franceses para apresentar o dispositivo Sauvegarde. Uma das diretoras do projeto, a jurista Zohra Harrach Ndiaye, contou que ele foi criado para oferecer proteção às crianças, adolescentes e adultos de periferias de Seine-Saint-Denis na França, incluindo aquelas observadas pelo governo por envolvimento com atos terroristas.

Ela explicou que para entender o dispositivo, era necessário entender sobre sua criação e lembrou que no ano de 2014, em um contexto internacional de luta contra o terrorismo, a França apresentou seu plano de prevenção da radicalização, o qual defende a necessidade de atacar e lutar contra o conjunto de causas do fenômeno terrorismo. Segundo a jurista, isso significa tentar acabar com as formas de recrutamento, por exemplo, e facilitar a reintegração e inserção destes jovens. “Para lutar contra o terrorismo, é necessário interessar-se pelas causas”, ressaltou.

“A França conheceu os traumas dos atentados em fevereiro de 2015, em novembro de 2015 e no estádio de Seine-Saint-Denis, onde fica o dispositivo Sauvegarde. É preciso saber que esses eventos trágicos aceleraram a instalação deste plano de prevenção da radicalização’’, informou Zohra Harrach. A forma do dispositivo foi pensanda a fim de influenciar no que ela chama de radicalização e, para seu funcionamento, assumiram o posicionamento de que não eram especilistas em terrorismo, no Islã ou nos métodos de desrradicalização’’.

“A gente se posicionou como ignorantes diantes destes fenômenos sociais que exprimem a violência mais extrema. Por isso procuramos fazer uma abordagem que incluíssem diversas disciplinas em uma dinâmica complementarista’’, acrescentou Zohra. “Sociólogos e psicólogos intervêm e articulam do mesmo modo como os educadores, psquiatras, professores, juízes da infância, pessoas que foram presas, etc. ”, completou.

Outra característica destacada pela jurista é que o dispositivo procura articular, com ação e pesquisa, sem teorias prontas. Essa parte teórica seria aplicada de acordo coma  observação do fenômeno, das situações, pra produzir um saber de forma contínua. É o que concorda o sociólogo Saïd Bouamama, que também tem trabalhos associados ao Sauvegarde. “Uma das originalidades do dispositivo é considerá-lo como um espaço de pesquisa, o qual deve estar presente continuamente, colocando-se no contexto social e político da emergência do debate sobre erradicalização”, comentou.

É preciso entender e considerar o contexto dos jovens franceses

Saïd Bouamama completa a ideia defendida por Zohra Harrach, dizendo que há a necessidade dessas pesquisas se desvincularem das teorias já prontas e da visão objetivista. ‘’Não consideramos que existe o indivíduo de um lado e o coletivo do outro. Não podemos apreender esses jovens, contentando unicamente com suas trajetórias individuais, sem colocá-los em confrontação com o contexto social, político, econômico e territorial no qual construíram suas individualidades’’, declarou.

“Para nós foi importante interrogar nosso modo de intervenção e nosso modo de presença, diante de um público que não queria estar com a gente. Eram pessoas com especificidades, que foram denunciadas pelas famílias ou professores, por exemplo, e estavam sendo vigiadas. Mas era preciso criamos nossa atuação em cima deste contexto para suscitar a adesão destes”, explicou Zohra.

Ela ainda disse que a maioria das pessoas atendidas pelo dispositivo eram jovens adultos, sendo 84% com idade inferior a 30 anos. A maior parte destes tinha menos de 18 anos e, destes, havia uma sub-representação de meninas. O atendimento era feito tanto para os chamados radicalizados, quanto para suas famílias, seja dentro ou fora das prisões, com ou sem processos judicias. “São processos complexos que implicam, da nossa parte enquanto profissionais, em um trabalho arqueológico, de autopsia, de acompanhamento de cada caso. Cada situação pede uma clínica singular”, destacou a jurista.

Foto: Carol Morena

Devido a esse cuidado com cada pessoa e sua situação, Zohra ressaltou que a solução do terrorismo não pode ser feita rapidamente. É preciso de tempo para entender tais complexidades e que isso deve começar com os porquês. Por que um jovem de 14 anos sonha em ser um mártir? Ou em que estado de desesperança é preciso estar para ir morrer longe dos seus por uma causa completamente estrangeira? “Em qual estado de renúncia é preciso estar para cortar radicalmente com aqueles que são os nosso e constituem o nosso mundo? Por que na Síria ou no Iraque os jovens franceses são os mais numerosos entre os europeus? Como a França é um dos maiores países europeus fornecedores de jihadistas, onde e como o país falhou com eles para que sentissem a necessidade radical de se cortar os laços dessa maneira?”, completou.

Zohra afirmou que o que chamam de radicalização é uma forma contemporânea de um fenômeno que toma outras facetas. Pode se dar pela entrada massiva nas drogas ou na criminalidade, por exemplo. Por isso, há “urgência de pensarmos essa realidade social de modo interligado”.

Na busca de tentar entender as motivações e contextos destes jovens, Saïd Bouamama contou como ficou assustado com a frequência de humilhação quando fizeram uma reescritura e análise das suas trajetórias. Além da dificuldade destes jovens construírem suas identidades, em consequência das violências sofridas ainda com seus pais. ‘’Estas humilhações fazem parte do cotidiano destes jovens e são feitas por intituições que deveriam socializar, com a escola, o controle da polícia ou a administração’’, argumentou.

‘’Podemos dizer que alguns contextos sociais e políticos aceleram, dão visibilidade e absolutizam os processos que já estavam presentes, mas que não tomavam essa dimensão da passagem para o ato’’, debateu. ‘’Se abordarmos a radicalização como resultado de um encontro de trajetorias e contextos, então se torna possível olhar essas dimensões em outros planos, como geográficos, por exemplo, como esperamos com a parceria com vocês, no qual há contextos comuns e históricos’’, completou

A mesa-redonda também contou com a contribuição da psicóloga francesa Malika Mansouri; do psiquiatra francês e membro da Associação Mundial de Psicanálise, Philippe Lacadée; e dos professores da Universidade de Michigan nos Estados Unidos, Erin Kahle e Rob Stephenson, o qual é diretor do The Center for Sexuality and Health Disparities.

Congresso Nacional de Saúde
A programação da 4ª edição do Congresso reuniu mais de 10 mesas-redondas, workshops e oficinas em torno do tema “Promoção da Saúde: Interfaces, Impasses e Perspectivas”, além de três simpósios internacionais nas áreas de prática e ensino de Saúde.

A programação do Congresso Nacional de Saúde se encerrou hoje, 30 de agosto de 2017. Além da programação científica, o Congresso contou ainda com atividades culturais, exposições, apresentações, lançamentos de livros e intervenções durante toda a programação, que integrou  a programação das comemorações dos 90 anos da UFMG, celebrados em 2017.

A Secretaria executiva do 4º Congresso Nacional da Saúde atende na sala 5, no térreo  da Unidade.

Confira a programação completa na página do Congresso Nacional de Saúde.
Mais informações: 3409 8053, ou ainda pelo e-mail 4congresso@medicina.ufmg.br
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