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O estigma do adoecimento mental no trabalho


Publicado em: ExternasSaúde - 2 de janeiro de 2018

*Ives Teixeira Sousa – matéria originalmente publicada no Boletim do Osat

Mesmo com subnotificação, doença mental é a terceira causa de incapacidade para o trabalho no Brasil

Imagem: reprodução/internet.

A reação ao ser informado da ausência de um colega de trabalho por causa de sofrimento mental, muitas vezes, é duvidar da situação de saúde informada. Isso se deve, entre outros motivos, pela dificuldade em perceber os sinais de adoecimento do colega, bem como pela sobrecarga que a ausência dele vai causar. É o que explica o psiquiatra e professor do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG, Helian Nunes.

Para ele, o estigma social é um dos principais problemas decorrentes do adoecimento mental. “Talvez as pessoas tenham mais paciência com uma pessoa que esteja com a perna quebrada. Mas o sofrimento da pessoa com algo que não é tão visível, como depressão e ansiedade, às vezes, não é percebido como legítimo”, acredita o professor.

Porém, estudiosos em transtornos psíquicos, como a professora aposentada da UFMG, Maria Elizabeth Lima, indicam que não há algo capaz de definir a passagem entre uma situação vivida e o transtorno mental. De acordo com Helian, como consequência, há uma estigmatização em relação a esse tipo de adoecimento como se isso, por si só, fosse gerar incapacidade funcional. “Isso não pode ser um critério de exclusão, já que quase todo mundo algum dia pode ter uma. O colega deve respeitar o adoecimento do outro, ajudá-lo a procurar tratamento”, analisa o psiquiatra.

Pressão social
A relação com o trabalho ainda é muito impositiva: obrigação, ponto, jornada, produção. Deveria ser um espaço de realização pessoal, de crescimento, de integração com a sociedade”, comenta Helian.

Porém, para o psiquiatra, o local de trabalho pode gerar traumas intensos, como o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), depressão e até mesmo suicídio. Nos Estados Unidos, por exemplo, ele indica que há estudos que demonstram o aumento de suicídios nos locais de trabalho. “Esses casos não são tão raros, mas são subnotificados, e passam uma mensagem de que o trabalho é extenuante, angustiante”, acredita o professor.

Ainda assim, os transtornos mentais e comportamentais são a terceira causa de concessão de auxílio-doença e de aposentadoria por invalidez entre 2012 e 2016, após lesões e causas externas e doenças do sistema osteomuscular, de acordo com o boletim do Ministério da Fazenda (ver tabela). Esse estudo também comprova a dificuldade em relacionar o trabalho com o adoecimento mental. Essa complexidade faz com que os afastamentos, sejam, em grande maioria, temporários. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, 10% dos empregados no mundo já tiraram licença por depressão, mesmo assim, 50% das pessoas com depressão não são tratadas.

Fonte:
1º Boletim Quadrimestral sobre benefícios por incapacidade 2017. Clique para ampliar.

Cuidado com o trabalhador
O temor do desemprego está entre os fatores que resultam na resistência do trabalhador em relacionar o adoecimento mental com o trabalho, o que pode agravar os transtornos. “Ao serem retratadas como um local onde os trabalhadores adoecem, as empresas podem não conseguir atrair os melhores profissionais”, opina o professor da UFMG.

Para Helian, a atitude deveria ser diferente. O médico da empresa, por exemplo, pode colaborar para o trabalhador muito além do diagnóstico de doenças ou das notificações dos adoecimentos no sistema de saúde.

“Ele tem a oportunidade de ser um profissional capaz de ampliar os conceitos de um ambiente saudável, com boa convivência”, comenta.

Atendimento
A linha de cuidado Trabalho e Saúde Mental do Serviço Especializado de Saúde do Trabalhador do Hospital das Clínicas da UFMG (Sest/HC-UFMG) realiza consultas ambulatoriais nas terças-feiras pela manhã, no Ambulatório Bias Fortes, no campus Saúde da UFMG. Os pacientes precisam ser encaminhados pela rede de atendimento do SUS.

Mais informações: 3409 9564

 

*Redação: Ives Teixeira Sousa – estagiário de Jornalismo
Edição: Mariana Pires

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