Mudanças na avaliação curricular do Processo Seletivo Único passam a valer este ano. Inscrições para a seleção vão até 22 de outubro.

A partir deste ano, o Processo Seletivo Único para entrada na Residência Médica (PSU) terá novos critérios para a avaliação curricular, que poderá fazer diferença na formação dos futuros médicos. As atividades complementares passam a ter pontuação maior e há limite das tarefas que podem ser feitas em um mesmo período. As mudanças são em decorrência de um longo processo de negociações de entidades e órgãos da Faculdade de Medicina da UFMG e da Universidade para reduzir a carga horária extra dos alunos. Assim, para os responsáveis, mais do que a quantidade de atividades, o compromisso e a dedicação passam a ser priorizados nesta nova versão.

Foto: Carol Morena.

O Processo Seletivo Único é realizado pela Associação de Apoio a Residência Médica de Minas Gerias (Aremg), sendo a porta de entrada em programas de residência médica, como o programa do Hospital das Clínicas da UFMG. A avaliação é feita em duas etapas, composta por prova, com o valor de 90 pontos, e análise curricular, no valor 10 pontos.

Mas, para obter pontuação máxima na avaliação curricular, era travada uma espécie de corrida por atividades complementares, como a procura acirrada por monitorias, projetos de extensão e estágio. Ainda assim, alcançar esse limite se tornou um esforço comum aos estudantes diante da grande concorrência por uma vaga na Residência.

“A carga horária chegava ao limite da capacidade humana de tempo. É como se eles fizessem dois cursos distintos”, afirma a professora da Faculdade de Medicina e membro do Núcleo Docente Estruturante, Cristina Alvim. Isso porque além das 7.200 horas mínimas do curso de Medicina preconizadas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais, a pontuação máxima da avaliação de currículo exigia até 25 horas extras de atividades por semana. Assim, ao somar tudo, a carga horária de atividades atinge 55 horas por semana, isto é, 11 horas de atividades por dia.

Sobrecarga 

Para dar conta de cumprir a carga horária extra, muitos alunos faltavam às atividades curriculares obrigatórias, essenciais à formação. Outra consequência era a falta de tempo livre para que pudessem estudar os conteúdos e dedicar a outras áreas que extrapolam a formação médica, mas que são importantes para a formação cidadã, como cultura e lazer.

E, quando a tentativa era de compatibilizar as atividades, os sinais de esgotamento logo apareciam. “Eles não tinham tempo livre para cuidar da saúde física e mental. Ter que fazer alguma coisa sem vontade adoece, ainda mais se não tem tempo nem para respirar”, comenta Cristina Alvim.  Sem tempo livre para estudar, cuidar da saúde física e emocional e com prejuízo significativo na qualidade de vida, o sofrimento mental passou a ser uma realidade na rotina de boa parte dos alunos.

Negociações

O processo de negociação para as modificações no PSU foi longo e demandou a mobilização de diferentes órgãos e entidades. “Foi um movimento de muitas pessoas. A reflexão está no Colegiado da Faculdade de Medicina, no Núcleo Docente Estruturante, na Escuta Acadêmica, que recebe alunos que reclamam dos prejuízos à saúde mental, no Núcleo de Apoio Psicopedagógico aos Estudantes, Diretoria, entre outros. Há muito tempo estamos preocupados”, diz a professora Cristina Alvim.

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Para solicitar a revisão da avaliação à Aremg, o Núcleo Docente Estruturante do curso de Medicina ampliou as discussões para outros setores da Faculdade e da Universidade, como as pró-reitorias de Graduação e Extensão e a Diretoria de Avaliação Institucional. Outras instituições federais de ensino superior também foram consultadas pela professora e coordenadora do Colegiado da Faculdade de Medicina, Taciana de Figueiredo Soares, como a de Viçosa, Uberaba e Juiz de Fora. Todas foram unânimes ao considerar a avaliação curricular negativa para a formação e a saúde do estudante.

Com isso, uma proposta de revisão da avaliação curricular foi encaminhada pela Faculdade. A proposta teve como base as Diretrizes Curriculares Nacionais, em que “o graduado em Medicina tem formação geral, humanista, crítica, reflexiva e ética”.

Apesar de não terem sido considerados todos os critérios na nova versão do PSU, a professora Cristina Alvim considera que as modificações já representam um avanço. “Foram feitas mudanças intermediárias. Por que aceitamos? Por dois motivos: porque é preferível manter o processo unificado; e porque uma mudança gradual é melhor do que uma mudança brusca, que é mais difícil de ser aceita e compreendida”, completa.

 Mudanças

As alterações já passam a valer este ano. Uma das mudanças foi colocar um limite de atividades que podem ser feitas concomitantemente. Estágio e extensão, por exemplo, não podem mais ser realizados ao mesmo tempo. Outra mudança foi na pontuação, que passou a ter um peso maior para cada uma das atividades para que fossem mais valorizadas. Também foram incluídas outras comprovações de conhecimento em língua estrangeira em substituição aos certificados de proficiência com custo elevado. “A alteração reflete a preocupação de que os critérios não excluam por motivos de ordem econômica. Debate esse que precisa ser aprofundado”, acrescenta Cristina Alvim.

Veja como era e como ficou a pontuação de algumas atividades:

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O edital do PSU deste ano, com a pontuação de todas as atividades, pode ser consultado aqui.

Leia os depoimentos dos estudantes 

“Achei a mudança positiva, pois as atividades complementares não eram valorizadas. Além de reduzir o número de atividades de extensão e de monitoria para conseguir uma boa pontuação. No entanto, fomos pegos no meio do caminho. Durante a minha graduação, busquei não me preocupar com minha pontuação e seguir meu caminho. Mas, muitos colegas participaram de atividades pensando nos pontos e, com a mudança, vão acabar tendo uma pontuação menor. Mesmo assim, acredito que isso vai ajudar no futuro. O curso tem a carga horária mais pesada do país e as atividades extras aumentavam a sobrecarga”. Gabriela Zamunaro Lopes Ruiz, 25 anos, 12º período do curso de graduação em Medicina da UFMG.

“Comparando com o modelo antigo, acredito que ficou mais tranquilo pontuar. No currículo antigo as atividades eram desvalorizadas. Nesse sentido, facilitou. Mas acho que ainda está longe de ser o adequado. É preciso, por exemplo, publicar dois artigos, o que não é simples. Muitas vezes, o aluno participa de um projeto que não tem afinidade só para ter a publicação, contribuindo para certo ‘produtivismo’”. Rafael Figueiredo dos Santos, 24 anos, 11º período do curso de graduação em Medicina da UFMG.

“Sempre tentei traçar meu percurso sem pensar muito em como ficaria o currículo. Mas, é muito difícil não ter essa preocupação. Ficamos sobrecarregados e envolvidos em mais atividades do que é realmente necessário. A avaliação sempre foi um ponto de grande relevância no curso. A mudança era uma coisa que tinha que acontecer com urgência. Fazíamos uma faculdade paralela, basicamente, para termos uma nota competitiva. Isso acabava tirando a oportunidade de fazermos algo do nosso interesse e que contribuísse para o crescimento pessoal e ético. Acredito numa universidade menos voltada para o currículo e mais voltada para o humano”. Pedro Versiani dos Anjos Menezes, 28 anos, recém-formado em Medicina pela UFMG.

 

 

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