Não é só vapor: conheça o cigarro eletrônico e narguilé

Especialistas falam sobre os efeitos do cigarro eletrônico e narguilé para a saúde. Dia mundial sem tabaco foi lembrado na última sexta-feira, 31 de maio.


    03 de junho de 2019


    Especialistas falam sobre os efeitos do cigarro eletrônico e narguilé para a saúde. Dia mundial sem tabaco foi lembrado na última sexta-feira, 31 de maio.

    *Marcela Brito

    Imagem: Pixabay

    Ao menos três dias da semana, o estudante Pedro**, de 22 anos, reserva para o uso do cigarro eletrônico. Ele, que já usava o narguilé, conta que passou a consumir esse tipo de cigarro por ser mais prático e por considerar menos nocivo à saúde. Já o estudante Daniel**, de 19 anos, usa o cigarro eletrônico em festas e conta que o sabor é o que mais o atrai. O tema é controverso, mas especialistas alertam que esses produtos podem trazer impactos para a saúde que equivalem ou, até mesmo, superam aos dos cigarros comuns.

    Apesar de serem tratados como produtos inofensivos, o professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG e coordenador do Ambulatório de Tabagismo do Hospital das Clínicas da Universidade, Frederico Garcia, explica que o cigarro eletrônico e o narguilé podem conter substâncias tóxicas como a nicotina, o que pode causar dependência. “A maioria das essências de cigarros eletrônicos usam nicotina na composição. Já no narguilé, se utiliza uma brasa quente para aquecer o fumo, que geralmente é o tabaco”, explica o professor.

    No entanto, existem uma variedade de cigarros eletrônicos e compostos para a inalação. Em alguns modelos, há a queima de substratos que produzem fumaça. Em outros, substâncias líquidas são usadas para gerar vapor, e não fumaça. A temperatura do vapor também pode variar, assim como os componentes do líquido ou do substrato.

    Mais do que vapor

    O professor Frederico Garcia reconhece que ainda faltam estudos sobre o tema. No entanto, ele explica que alguns aparelhos liberam uma quantidade maior de nicotina que os cigarros comuns. E mesmo aqueles que não têm nicotina na composição podem representar risco. “Ainda não se sabe se esse vapor tem alguma consequência a longo prazo. Não há estudos observando isso. Mas esse vapor não é apenas água, nele contém outras substâncias, como o glicerol e essências. E, quando há uso intenso desses produtos, esse vapor pode irritar as células do pulmão”, afirma.

    No narguilé, por sua vez, uma brasa quente aquece o fumo ou a substância que se deseja fumegar. Ao ser aspirado, é produzida uma fumaça que passa por um tubo até o leito de água. Essa água resfria a fumaça, que é aspirada pelo usuário. Mesmo sendo resfriada, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou, em 2005, um relatório no qual alerta que outros venenos da queima do fumo, como monóxido de carbono e metais pesados, continuam intactos e podem fazer mal.

    Segundo Frederico Garcia, a longo prazo, a inalação da fumaça pode causar problemas mais graves. “Já sabemos que qualquer aspiração de fumaça leva a irritação nos brônquios. Essa irritação pode dar início a um processo inflamatório que predispõem às doenças inflamatórias e, futuramente, ao câncer”, explica. 

    Proibido

    Para Pedro**, o cigarro eletrônico produz menos substâncias que fazem mal à saúde. “Uso em casa e não acho que faz tanto mal quanto os cigarros comuns”, diz. Mesmo sem estudos sobre a nocividade dos cigarros eletrônicos e o consumo em território brasileiro, a venda desse produto é proibida no país. Ainda assim, é possível perceber maior procura por informações ligadas ao funcionamento e compra desses aparelhos na internet.

    Uma das razões dessa proibição está alinhada às políticas de redução do consumo de tabaco adotada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “A decisão de liberar este produto seria paradoxal, pois a agência estaria liberando um produto similar ao tabaco e que tem impactos desconhecidos para a saúde”, explica o professor Frederico Garcia.

    O especialista acrescenta que a proibição também está relacionada ao uso desse tipo de cigarro como forma de entrada para o consumo do cigarro branco. “Os jovens começam a usar esse tipo de cigarro com nicotina por diversão e se tornam viciados nessa substância. Como o cigarro eletrônico é mais caro, acontece a troca desse produto por tipos mais baratos como o cigarro branco”, comenta Garcia.

    Narguilé

    Imagem: Pixabay.

    Em contrapartida, não há nenhuma legislação específica para o uso do narguilé. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2015, 212 mil brasileiros admitem ter usado esse acessório para o fumo de tabaco e de outras plantas, geralmente misturados com essências aromatizantes. O narguilé tem origem em países árabes e desembarcou no Brasil junto à importação de outros produtos orientais.

    Para o pneumologista do Hospital das Clínicas da UFMG, Luiz Fernando Ferreira Pereira, o narguilé é considerado um problema de saúde pública, uma vez que as substâncias encontradas são as mesmas do tabaco. “Uma hora de inalação contínua de narguilé equivale a fumaça de 100 cigarros”. 

    Outro risco, de acordo com o professor Frederico Garcia, é quando esse produto é compartilhado e não há uma higienização. “Com isso, há um risco maior de infecções pulmonares”, alerta.

    No Senado, tramita um projeto de lei o PLC 104/2018 que proíbe a venda de narguilés para crianças e adolescentes. A proibição se estende a acessórios como cachimbos, piteiras e papeis para enrolar cigarro. Para Frederico Garcia, esses produtos transmitem falsa sensação de segurança, porém, não são essenciais para vida. “O que existe é um apelo por uma criação de uma demanda forçada para esses produtos, principalmente entre os jovens”, conclui.

    COMO FUNCIONAM?

    Narguilé:
    utiliza uma brasa quente para aquecer o fumo ou a substância que se deseja fumegar. Ao ser aspirado, é produzida uma fumaça que passa por um tubo até o leito de água. Essa água resfria a fumaça que é aspirada pelo usuário. 
    Cigarro eletrônico: possui uma ampola onde é guardada a substância, com ou sem nicotina. Ao lado desse recipiente, há um interruptor e a resistência do aparelho. Quando o cigarro é aspirado, o interruptor é acionado, ligando a resistência que aquece substância e a transforma em fumaça ou vapor, quando líquida.

    * Marcela Brito – estagiária de Jornalismo
    Edição: Karla Scarmigliat

    **nomes fictícios – fontes pediram para não serem identificadas