Faculdade de Medicina

Universidade Federal de Minas Gerais


*Ana Rita Araújo/Boletim 1821

Os 137 óbitos maternos registrados de 2003 a 2010 no município de Belo Horizonte têm claros indícios de evitabilidade, afirma a demógrafa Lilian Valim Resende [na foto de Isabella Lucas/UFMG], em tese de doutorado recém-defendida na UFMG.

“Mulheres em idade reprodutiva não deveriam morrer em decorrência de problemas ligados à gravidez, ao parto ou ao pós-parto”, pondera. Segundo ela, os relatos dos familiares sugerem que existem falhas na assistência prestada à saúde da mulher na capital mineira, tanto no sistema público quanto no privado.

Lilian Resende - Isabella Lucas/UFMG

A demógrafa Lilian Valim Resende. Foto:Isabella Lucas/UFMG

Entre tais fatores está a ausência de atenção qualificada desde o pré-natal até o pós-parto, o que inclui a não valorização das queixas das mulheres, a falta de vinculação das pacientes a um hospital de referência que possibilite a garantia de vaga de modo a evitar a peregrinação e a alta precoce. “O acesso à saúde não é a questão principal, mas sim os problemas com relação ao atendimento no tempo oportuno e ao uso de tecnologia apropriada”, avalia a pesquisadora.

Outro desafio identificado no estudo é a necessidade de melhorar a relação profissional-usuária, “que deveria ser pautada pela humanização do atendimento, erradicando de vez os casos de violência obstétrica”, ressalta.

O trabalho foi desenvolvido sob orientação do professor Roberto do Nascimento Rodrigues, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), e co-orientação da professora Maria do Carmo Fonseca, aposentada do Cedeplar e consultora no tema políticas sociais de gênero.

Queda da mortalidade

A morte materna é a que ocorre durante a gestação ou até 42 dias após seu término, por qualquer motivo relacionado ou agravado pela gravidez. As principais causas são as síndromes hipertensivas específicas (pré-eclâmpsia/eclâmpsia), complicações do aborto, hemorragias e infecção puerperal.

A pesquisadora explica que, apesar da redução nos índices desse tipo de óbito a partir do início do século 20, sobretudo nos países desenvolvidos, o assunto tem preocupado a Organização Mundial de Saúde (OMS), que estabeleceu como nível aceitável menos de 20 mortes maternas por 100 mil nascidos vivos.

A capital mineira, focalizada na tese, ostentava índice de 64 mortes por 100 mil nascidos vivos em 2010, superior à média do Brasil, que era de 56 mortes. O índice brasileiro, apesar de ainda alto para os padrões preconizados pela ONU, é 51% menor ao registrado em 1990, quando morriam, em média, 120 mulheres para cada 100 mil crianças nascidas vivas. “A meta, que provavelmente não será alcançada no tempo previsto, até 2015, é que o país chegue a 35 mortes por 100 mil nascidos vivos”, comenta Lilian Resende.

A pesquisadora chama a atenção para outro aspecto do problema, a evitabilidade. “Quantos desses óbitos poderiam ter sido evitados num contexto diferente, no qual essas mulheres pudessem ser ouvidas, informadas, acolhidas, e enfim receber, para elas próprias e para suas crianças, a adequada assistência à que têm direito como cidadãs?”, questiona.

De acordo com os dados que conseguiu apurar, dos 137 óbitos maternos ocorridos em Belo Horizonte no período estudado, 86 eram evitáveis, oito eram provavelmente evitáveis, dois provavelmente inevitáveis e três inevitáveis. Ela aponta fatores que poderiam contribuir para evitar tais mortes, como a atenção qualificada, com captação precoce da gestante no pré-natal, encaminhamento ao pré-natal de alto risco, valorização das queixas das mulheres e busca ativa, nos casos em que a gestante por algum motivo interrompeu a assistência.

Com relação ao pós-parto, familiares sugerem aspectos que consideram estar associados às ocorrências: a falta de acompanhamento após a alta, especialmente para as mulheres com doenças prévias à gestação; a demora nos diagnósticos; e a alta precoce.

Metodologia

Dois grupos de óbitos maternos foram identificados na pesquisa. No primeiro estão casos que ocorreram no pós-parto cesárea, de mulheres que realizaram o pré-natal, tiveram recém-nascidos vivos e faleceram principalmente por síndromes hipertensivas e infecções puerperais.

No segundo grupo estão mulheres solteiras, usuárias do sistema público de saúde, que morreram na gestação ou por complicações do aborto provocado. Os relatos dos familiares sugerem que existem falhas na assistência prestada à saúde da mulher em Belo Horizonte “independentemente de o sistema de saúde ser público ou privado”, destaca Lilian Resende.

Nas entrevistas, os familiares apontaram também deficiências na formação dos profissionais de saúde, incluindo desde questões de qualificação até aspectos humanísticos na prestação dos cuidados.

Tese: O contexto e perfis característicos da mortalidade materna em Belo Horizonte (MG), 2003-2010

Autora: Lílian Valim Resende

Defesa: abril de 2013, junto ao doutorado em Demografia do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), da Faculdade de Ciências Econômicas

Orientador: Roberto do Nascimento Rodrigues

Co-orientadora: Maria do Carmo Fonseca

 

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