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Mindfulness ajuda mulheres com Síndrome do Ovário Policístico a perderem peso

A redução do peso corporal em mulheres obesas e com a síndrome contribui para aumento da fertilidade


    26 de agosto de 2019


    *Giovana Maldini

    A obesidade é um problema que atinge muitos brasileiros. Segundo a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, o país registrou 19,8% de obesos em 2018. Esse número representa um aumento de 67,8% em relação a 2006. O distúrbio pode ser um fator de risco para diversas doenças, como a Síndrome do Ovário Policístico (SOP), agravando as alterações metabólicas e reprodutivas, o que pode levar à infertilidade. Pensando nisso, um estudo da Faculdade de Medicina da UFMG analisou os benefícios do mindfulness para a perda de peso em mulheres inférteis ou com SOP portadoras de sobrepeso ou obesidade.

    De acordo com a pesquisa de mestrado defendida por Edna Mariz Camara Sant’anna, por meio do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Mulher, a porcentagem de anovulação em mulheres obesas com SOP chega a ser superior a 50% e a indução da ovulação farmacológica apresenta uma piora na resposta. Por outro lado, o estudo mostra que a redução do peso corporal contribui significativamente com o aumento da fertilidade e minimiza os riscos de uma complicação no parto entre essas mulheres.

    A Síndrome do Ovário Policístico provoca alterações hormonais e afeta, principalmente, mulheres em idade reprodutiva, dos 15 aos 35 anos. Sua principal característica é a ausência da ovulação. Já os principais sintomas da síndrome são: menstruação irregular ou ausente por longos períodos; aumento de pelos no rosto; grande quantidade de acne; e dificuldade para engravidar. O tema é abordado no programa de rádio Saúde com Ciência desta semana.

    De acordo com o professor do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina UFMG, Fernando Reis, a obesidade é um fator associado à síndrome e uma das principais causas preveníveis e reversíveis de infertilidade.

    “É como se fosse um efeito cascata: a obesidade predispõe à resistência à ação da insulina, hormônio do pâncreas que produz a glicose, e essa resistência em vários tecidos aumenta a insulina no sangue. Já o ovário, particularmente, não tem tanta resistência quanto o fígado ou músculo. Então, no ovário, a insulina faz aumentar a produção de testosterona e dificulta o crescimento adequado dos folículos que vão gerar a ovulação”, explica.

    Técnica é capaz de auxiliar mulheres obesas inférteis com Síndrome do Ovário Policístico a reduzir o peso. Foto: Carol Morena

    Por isso, a pesquisa analisou a contribuição do mindfulness na adesão ao tratamento para perda de peso por mulheres inférteis e com a síndrome. O estudo identificou que intervenção com essa técnica promoveu melhora na alimentação e qualidade de vida, bem como redução significativa das medidas de cintura, quadril e circunferência abdominal dessas mulheres, fatores que contribuem para o aumento da fertilidade.

    Como a técnica auxilia?

    O mindfulness consiste em focar no presente e dissipar as preocupações com o passado ou futuro. “Nós avaliamos que a pessoa, ao meditar com essa técnica, consegue se alimentar melhor, pois ela foca a sua atenção no momento e no ato de se alimentar, e não vê como uma forma de aliviar a ansiedade”, explica Fernando Reis, que orientou o estudo. “Com isso, ela pode aderir melhor às orientações de alimentação saudável, melhorar as condições metabólicas e alterar o peso, para aquelas que estão com excesso”, complementa. 

    O que é o mindfulness? A técnica surgiu a partir de práticas budistas há mais de 2500 anos. No entanto, só em 1979, o médico Jon Kabat-Zinn criou o Mindfulness-Based Stress Reduction (a redução do estresse baseada em mindfulness), um curso que utilizava a técnica como prática terapêutica.

    Aplicação da técnica

    A técnica pode ser aplicada no dia a dia por quem deseja utilizá-la. Mas é recomendado que, primeiramente, a pessoa frequente encontros presenciais, com profissionais qualificados, para aprender a meditação. Após esse período de treino, o mindfulness pode ser aplicado no cotidiano. “Não é uma técnica difícil. As pessoas que praticam essa forma de atenção plena se sentem muito bem e, em geral, permanecem com a prática”, relata o professor Fernando Reis. 

    Benefícios

    Além dos benefícios da redução de peso para mulheres obesas inférteis ou com a Síndrome do Ovário Policístico, a técnica pode melhorar diversos aspectos da qualidade de vida de seus praticantes. “Nós observamos na pesquisa que grande parte das pessoas que se submeteram à intervenção, ou seja, participaram das reuniões e fizeram o conjunto das práticas, relatou, nos questionários, melhora de vários aspectos do bem estar geral e dos indicadores de qualidade de vida”, afirmou o professor Fernando Reis.

    “Em uma outra pesquisa publicada recentemente (leia aqui), também pelo nosso grupo, nós observamos uma redução dos sintomas de depressão. Nós não diagnosticamos a doença. Isso foi analisado por meio de uma escala que mede os sintomas de depressão”, completa. 

    Para quem deseja conhecer como o mindfulness é aplicado na prática, o professor relata que existem diversos conteúdos na internet como publicações, sites e vídeos, que podem ser encontrados facilmente. “Caso a pessoa queira se inserir nessa prática, o ideal é que ela participe de atividades com pessoas habilitadas. Assim, ela pode incorporar a técnica no seu cotidiano e desfrutar dessa ferramenta de autoconhecimento para viver melhor”, conclui. 

    Sobre o programa de rádio

    Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a sexta-feira, às 5h, 8h e 18h. Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.


    *Giovana Maldini – estagiária de Jornalismo
    Edição: Karla Scarmigliat