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Macacos têm baixo potencial de transmissão de leishmaniose


06 de junho de 2019


Investigação foi feita no zoológico de BH por pesquisadores da Escola de Veterinária

Macacos do zoológico de BH: hospedeiros terminais. Foto: Herlandes Tinoco | Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica de BH

A leishmaniose visceral é uma doença zoonótica de alcance mundial causada pelo protozoário Leishmania infantum. É endêmica no Brasil, e seu principal vetor de transmissão é o mosquito-palha (Lutzomyia longipalpis). Em 2010, foi registrado o primeiro caso de leishmaniose visceral clínica em um primata não humano no zoológico de Belo Horizonte. “Desde então, sabe-se que os primatas não humanos são suscetíveis à infecção pelo protozoário. Mas ainda pouco se conhece sobre o papel dos macacos como reservatórios do parasita, ou seja, sua habilidade de manter o patógeno no organismo e disponibilizá-lo para o vetor”, afirma a veterinária Ayisa Rodrigues de Oliveira, doutoranda em Patologia Animal na Escola de Veterinária da UFMG.

Ayisa é a principal autora do artigo Competence of non-human primates to transmit Leishmania infantum to the invertebrate vector Lutzomyia longipalpis, publicado em abril deste ano na revista científica Plos Neglected Tropical Diseases e divulgado na plataforma PubMed, da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos.  “Avaliamos o potencial de transmissibilidade da leishmaniose visceral por espécies de primatas utilizando o xenodiagnóstico. O processo consiste na exposição dos macacos aos mosquitos ‘limpos’ da doença (assépticos), com posterior exame dos vetores para detectar a contaminação pelo protozoário”, explica a autora.

O número de protozoários detectados nos vetores [macacos] variou de 5,67 a 1.181,93 por micrograma de DNA. No caso de cachorros infectados, o índice chega a ser 30 vezes maior.

Uma das conclusões do estudo, segundo a pesquisadora, foi a de que os macacos são, de fato, capazes de transmitir o patógeno para o mosquito-palha, mas, de maneira semelhante ao que ocorre com os seres humanos na leishmaniose visceral por L. infantum, é baixa a carga transferida do micro-organismo. “Os macacos possivelmente se comportam como hospedeiros terminais, ou seja, não têm participação relevante no ciclo de transmissão. Sua carga parasitária é potencialmente insuficiente para que o mosquito consiga infectar e provocar a doença em outro hospedeiro. Contudo, eles ajudam na manutenção do agente no ambiente”, analisa Ayisa Rodrigues. Ela acrescenta que estudos de natureza análoga, dos quais também participou, indicam que o cão doméstico é o animal tido como “hospedeiro amplificador” da doença, capaz de gerar cargas parasitárias com poder de infectar outro hospedeiro.

O trabalho, multidisciplinar, foi realizado por Ayisa e outros pesquisadores do Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinária da UFMG, em parceria com os departamentos de Parasitologia e de Patologia Geral, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica de Belo Horizonte e do Instituto René Rachou, da Fiocruz Minas.

Saúde e conservação

O experimento com os primatas foi realizado de abril a junho de 2017, na Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica de Belo Horizonte. A pele da orelha dos animais, por ter menos pelo e ser um alvo mais fácil, foi exposta durante 30 minutos a enxames de mosquitos-palha criados no laboratório do professor Nelder Gontijo, do ICB. Em oito dos 52 animais – chimpanzés, micos-leões dourados, macacos-pregos e um macaco talapoin – submetidos ao xenodiagnóstico, foi confirmada a presença do protozoário. O número de protozoários detectados nos vetores variou de 5,67 a 1.181,93 por micrograma de DNA. Segundo Ayisa Rodrigues, no caso de cachorros infectados, o índice chega a ser 30 vezes maior.

Também envolvido na investigação, o professor Renato de Lima Santos enfatiza que o trabalho é relevante tanto para o planejamento em saúde pública quanto para o desenvolvimento de estratégias de medicina de conservação – área que tem recebido cada vez mais atenção na medicina veterinária. “No caso específico dos zoológicos, é importante que eles ofereçam boas condições para o estudo das enfermidades nos animais selvagens e mantenham ambientes com bom manejo sanitário”, defende o professor.

Artigo: Competence of non-human primates to transmit Leishmania infantum to the invertebrate vector Lutzomyia longipalpis
Autores: Ayisa Rodrigues de Oliveira, Guilherme Gomide e Renato Lima Santos, da Escola de Veterinária da UFMG; Ricardo Fujiwara e Nelder Gontijo, do Departamento de Parasitologia, e Tatiane Alves, do Departamento de Patologia Geral, do ICB/UFMG; Herlandes Tinoco, Maria Elvira Loyola, Carlyle Mendes e Angela Tinoco, da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica de Belo Horizonte; Edelberto Santos, Érika Monteiro, Fabiana de Oliveira, Andreza Maia e Nathália Pereira, do Instituto René Rachou, da Fiocruz Minas.

Redação: Matheus Espíndola para Boletim UFMG