Acesso interno

Humanização do parto traz benefícios para mães e bebês


27 de maio de 2019


*Nathalia Braz

Técnicas realizadas na assistência humanizada contribuem para que a mulher se sinta mais confortável, tranquila e com melhores condições psíquicas

Programa de Rádio Saúde com Ciência apresenta séria sobre violência em obstetrícia e parto humanizado. Foto: Hospital Sofia Feldman/ Reprodução.

A humanização do parto é um modelo de assistência que prioriza o bem-estar e cuidados com a mulher e o bebê. Esse modelo prevê um atendimento menos intervencionista, em que a mulher tem autonomia para decidir como quer ter o filho e com quem estar na hora do parto, por exemplo. Além disso, o modelo determina que a cesárea seja realizada apenas quando for a alternativa como menor risco para a mãe e o bebê. A importância da humanização do parto e seus benefícios são temas do programa de rádio Saúde com Ciência.

Quando não tem indicação médica, a cesariana expõe a mulher e o bebê a riscos desnecessários, uma vez que aumenta em 120 vezes a probabilidade de problemas respiratórios para o recém-nascido, bem como triplica o risco de morte da mãe, de acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). No entanto, as cesáreas ainda são maioria: correspondem a 57% dos partos no Brasil, de acordo com os últimos dados divulgados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O percentual ultrapassa ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que determina que somente 15% dos partos sejam realizados por meio desse procedimento cirúrgico. Devido a esse índice elevado, o Ministério da Saúde implantou, em 2000, o Programa de Humanização do Pré-natal e Nascimento, tendo instituído também, em 2005, a Política Nacional de Atenção Obstétrica e Neonatal.

“Os hospitais utilizam protocolos que são iguais para todo mundo e técnicas que não individualizam o cuidado com a mulher. Nesse sentido, se fala que se perdeu a humanização do parto”, afirma a pediatra e professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Promoção de Saúde e Prevenção da Violência da Faculdade de Medicina da UFMG, Sônia Lansky. Segundo ela, houve uma “radicalização tão grande na dimensão técnica do parto, que diminuiu a participação feminina individual de um processo familiar e social que faz parte da vida da mulher”.

No entanto, a professora explica que a gestante precisa de cuidados individualizados e tem o direito de escolher como deseja que seja na hora do parto. Além disso, a mãe não deve sofrer com a imposição de técnicas por equipes e profissionais, como ficar deitada com as pernas para cima durante o parto. Apesar de ser uma posição considerada normal por muitos profissionais, a pediatra Sonia Lansky ressalta que essa não é uma boa prática. “(Nessa posição) você comprime a passagem da bacia, o diâmetro do canal do parto. Além disso, comprime e diminui a oxigenação do bebê, porque tem grandes vasos que passam por traz do útero”, explica.

De acordo com a professora, a posição recomendada é a verticalizada, em que a mulher se apoia em uma bola, fica de cócoras no chão, se assenta em um banquinho ou fica em cima da cama.

No parto humanizado a mulher participa das escolhas sobre como o procedimento será realizado. Foto: Hospital Sofia Feldman/ Reprodução.

Plano de parto

Entretanto, a melhor escolha é aquela feita pela mulher junto à equipe de obstetrícia, organizando um plano de parto. “É um método que pode garantir uma melhor qualidade na assistência do parto, além de dar a opção da mulher de ter o controle sobre essas escolhas. É possível escolher a maternidade; qual tipo de parto; a equipe que irá orientá-la, entre outros”, destaca a professora Sonia Lansky.

Existem também técnicas que trazem melhor estabilidade para o ambiente do trabalho de parto, como estar com um acompanhante de confiança. “Isso traz conforto, tranquilidade, melhora a condição psíquica da mulher para liberar ocitocina, que é o hormônio do parto. Movimentar e ter espaço também são importantes”, recomenda Sonia Lansky.

Alívio da dor

A dor sentida na hora do parto normal é provocada por contração muscular e mobilizadora no útero. Porém, esse momento não precisa representar uma vivência de sofrimento, embora seja necessário para a concentração da mulher. “É um recurso da natureza para mobilizar a atenção da mulher. Se a gente parir sem atenção, possivelmente a gente não teria a dedicação do tempo e o alerta que precisa para se concentrar nesse momento para parir”, declara. A professora explica que métodos não farmacológicos comprovados podem ser utilizadas para aliviar a dor, como a massagem e a bola.

Parto normal

A recomendação é de que a mulher passe, se possível, pela experiência do parto normal. A prática traz benefícios como o contato dos bebês com as bactérias da mãe ao passar pelo canal vaginal. Essas bactérias são importantes para a imunidade da criança. “São adultos que vão ter menos risco de hipertensão, diabetes obesidade, alergias e asma. Até no desenvolvimento psíquico-infantil e adulto existem estudos que o parto normal favorece”, frisa Sônia Lansky.

Sentidos do Nascer

A pediatra Sônia Lansky é uma das coordenadoras da exposição Sentidos do Nascer, que ocorre de 15 de março a 13 de julho, no Parque das Mangabeiras. A visitação pode ser feita às sextas-feiras de 13h as 17h, e aos sábados de 10h as 16h. A entrada é gratuita.

A exposição utiliza metodologias de pesquisa-ação para promover transformações nas representações sociais sobre o parto e nascimento, incentivando a valorização do parto normal para a redução da cesariana desnecessária. O projeto é realizado pela UFMG junto à Prefeitura de Belo Horizonte, e financiado pelo CNPq, Ministério da Saúde e Fundação Bill & Mellinda Gates.

Sobre o programa de rádio

Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a sexta-feira, às 5h, 8h e 18h.

O programa também é veiculado em outras 145 emissoras de rádio, distribuídas por todas as macrorregiões de Minas Gerais e nos seguintes estados: Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe, Tocantins e Massachusetts, nos Estados Unidos.

Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.

*Nathalia Braz – estagiária de Jornalismo

Edição: Karla Sacrmigliat