Faculdade de Medicina

Universidade Federal de Minas Gerais


Estudo avaliou as informações de três bancos de dados e identificou contribuições, complementaridade e caracterizou os grupos mais vulneráveis entre usuários das vias urbanas em Belo Horizonte

pedestres“Nas últimas décadas os países grandes como China, Índia e Brasil tiveram um crescimento econômico e, com isso, maior acesso à aquisição do veiculo motorizado, embora nem sempre seguro”, afirma a médica epidemiologista Lúcia Maria Miana Mattos Paixão. Segundo ela, esta é uma das explicações para o alto número de mortes causadas por acidentes de trânsito no Brasil. Lúcia ainda conta que esses acidentes constituem um relevante problema de saúde pública global devido à elevada morbimortalidade. Considerando este fato, ela desenvolveu dois artigos defendidos como tese de doutorado junto ao Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG, nos quais analisa em conjunto o sistema de informação sobre mortalidade, o de internação hospitalar e as informações do trânsito.

No primeiro artigo, apesar dos registros incompletos, foi possível apontar como principais fatores associados aos acidentes os pedestres idosos, motociclistas, o uso de álcool e excesso de velocidade. Segundo a médica, o mais importante desta parte foi ter tratado de três fontes de dados que se mostraram complementares. “No Brasil, essa publicação que relaciona os bancos de dados é uma novidade. Outro diferencial é que, além de mostrar a situação de Belo Horizonte, a abordagem dessas três fontes serve como modelo para outros municípios que desejarem fazer a análise para saber em qual fonte determinada informação pode ser obtida”, relatou.

Além disso, o estudo mostrou importantes aspectos da cadeia de eventos relacionados aos acidentes de trânsito, desde sua ocorrência até a eventual evolução fatal, fornecendo, assim, informações sobre a magnitude do problema para guiar estratégias de controle. Já o segundo artigo utilizou os bancos de dados para caracterizar os perfis das vítimas fatais, considerando fatores como gênero, idade, escolaridade, entre outros, e identificar subgrupos mais vulneráveis.

Perfis
Para Lúcia Maria, por meio da pesquisa ficou clara a vulnerabilidade para os motociclistas do sexo masculino e jovens, e para os idosos como pedestres. Apesar de não ter sido o foco da pesquisa, a médica acredita que os idosos estão neste grupo porque a cidade não foi adequada a eles, embora seja uma população que esteja crescendo e se tornando mais independente. “A cidade nem sempre é confortável ao idoso. Esta é uma população com déficit locomotor, visual e cognitivo, já que nesse grupo há um número considerável com escolaridade baixa. Eles também não têm a noção da distância e a velocidade que o carro apresenta”, explicou. “Em conjunto temos o tempo do sinal para travessia muito rápido e o difícil entendimento da organização do fluxo, principalmente nos grandes cruzamentos”, completou.

O fato dos motociclistas jovens estarem entre os mais vulneráveis pode ser associado à sua própria personalidade e o gosto por velocidade, a intensidade da motorização das pessoas, principalmente com o aumento da frota de motos, uma infraestrutura que não acompanhou e uma postura pouco solidária no trânsito, criando um ambiente caótico, como descreve Lúcia.

O estudo também verificou aumento das mortes em via pública com 55% de positividade nos exames de alcoolemia e toxicológicos e 50% mais chance de acidentes fatais nos finais de semana, principalmente à noite e madrugada. Isto possivelmente decorre da maior fluidez do trânsito com maior velocidade, além de ser um período de maior consumo de álcool.

Sobre os óbitos, também verificou maior ocorrência na via e nas primeiras 24 horas. “Isso traduz a questão da velocidade, pois são acidentes graves. Este ainda é um desafio grande. Para a análise sobre a assistência pré-hospitalar e sua relação com a prevenção dessas mortes seria necessário outro estudo ”, reflete Lúcia. Ela ressalta que todos os dados se referem aos anos de 2008 a 2010 e aos residentes de Belo Horizonte, mesmo que os acidentes não tenham ocorrido dentro da cidade.

Implicações
Lúcia Maria informa que os resultados desta pesquisa serão apresentados à BHTrans até o inicio do ano que vem, além de, provavelmente, também ter a oportunidade de apresentar na Secretária Municipal de Saúde. “Acho importante termos o conhecimento sobre a magnitude desse problema na cidade. A partir do momento que essas informações forem utilizadas para implementação de ações , o beneficiário será a própria população”, declarou. “Embora, muitas vezes, a população entenda a fiscalização rígida como contra ela, não é. Tudo isso tem como objetivo principal a integridade das pessoas e a preservação da vida. A sociedade tem que entender que isso é favor dela”, completou.

Além disso, Lúcia lembra que este problema não é só do órgão de trânsito, mas sim de toda a sociedade. Para ela, é importante que a sociedade civil cobre por segurança além da cobrança por fluidez. “Ficou claro o perfil da cidade e temos que continuar monitorando. Para resolver uma questão tão complexa é necessário somar vários saberes e também atuar na educação. Temos que pensar de que forma abordar o público mais suscetível a morrer, para que ele passe a se proteger”, salienta Lúcia. “Por outro lado os órgãos de trânsito têm que tornar a fiscalização mais efetiva, adequar a velocidade para determinadas vias, continuar reprimindo o ‘beber e dirigir’ e analisar a necessidade das intervenções de engenharia. Nós da saúde buscamos contribuir nessas análises, sendo sempre um desafio a manutenção de trabalhos intersetoriais e interinstitucionais”, concluiu.

Serviço:
Título: Acidentes de trânsito em Belo Horizonte: qualificação da informação e caracterização de grupos vulneráveis. 2008-2010
Nível: Doutorado
Autora: Lucia Maria Miana Mattos Paixão
Orientadora: Waleska Teixeira Caiaffa
Programa: Saúde Pública
Defesa: 17 de Outubro de 2014

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