Faculdade de Medicina

Universidade Federal de Minas Gerais


História com sabor de presente


Publicado em: NotíciasPessoas - 17 de Março de 2014

*Notícia publicada no Boletim da UFMG

Livro de professor da UFMG, que resgata a trajetória do ensino da Medicina em Minas e no Brasil, permite estabelecer paralelos com a realidade atual da saúde pública

A partir da Revolução de 1930, o Brasil experimentou súbito desenvolvimento econômico e social, aumentando vertiginosamente a demanda por médicos. “Algum sujeito inteligente teve a ideia de treinar farmacêuticos e outros profissionais da saúde para se tornarem médicos. Dessa leva, surgiram brilhantes médicos”, relata o professor João Amílcar Salgado, da Faculdade de Medicina. Na mesma época, cidades foram criadas em ritmo acelerado na região Noroeste de São Paulo. O governo então se empenhou em aumentar o número de médicos formados em outras partes do Brasil, a fim de captá-los para suprir a demanda paulista. “Em Monte Aprazível, por exemplo, atuou o médico e escritor mineiro Pedro Nava no início de sua carreira”, afirma ele.

O professor João Amílcar Salgado. Foto: Bruna Carvalho

Os dois fatos estão descritos no livro História da Medicina no Brasil e em Minas Gerais (edição do autor) e é quase impossível não estabelecer conexão entre eles e o contexto que resultou no lançamento do programa Mais Médicos, centrado na contratação de profissionais estrangeiros para suprir a carência de médicos na periferia das grandes cidades e em áreas remotas do Brasil. “Uma leitura atenta desses fatos revela que é possível apreender alternativas para contornar a atual crise da saúde no Brasil”, acredita Amílcar, para quem as duas medidas, se aplicadas no dia de hoje, seriam mais eficientes do que a importação de médicos.

Paralelos entre o passado e o presente da Medicina caracterizam o livro de um dos mais respeitados historiadores da área no país. Além de ter testemunhado e participado de importantes transformações ocorridas ao longo dos últimos 60 anos, João Amílcar relata a evolução do ensino médico desde os seus primórdios – há 70 mil anos –, detalha seu desenvolvimento em diferentes partes do mundo e descreve a experiência brasileira, com destaque para a trajetória do curso da UFMG.

João Amílcar conta que, por conta do teor inédito da obra, lançada no segundo semestre do ano passado, chegou-se a cogitar sua tradução para outros idiomas. “Em geral, a história da Medicina é apresentada de maneira não muito autêntica pelos historiadores. Eles a confundem com uma sequência de biografias de grandes médicos”, argumenta o professor. Mesmo se considerando apenas o ensino formal, João Amílcar afirma que é muito difícil precisar a gênese da formação profissional. “Somente há cerca de dois mil anos o ensino da medicina foi desvinculado da religião. Antes disso, já existiam mosteiros milenares que formavam médicos e sacerdotes. Alguns documentados, outros não”, pondera. No Brasil, o primeiro curso que diplomou profissionais de saúde foi criado em 1801: o de Cirurgia em Vila Rica, atual Ouro Preto.

Contribuição

Em 1975, João Amílcar foi um dos responsáveis pela inclusão da História da Medicina no currículo da UFMG. Graduado em Medicina e Pedagogia, João Amílcar é mestre e doutor em Medicina Tropical. Foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira da História da Medicina, em 1997, e um dos líderes do processo de institucionalização da residência médica na UFMG – modelo que inspirou outras universidades brasileiras e é reconhecido por instituições internacionais. Amílcar também criou o Centro de Memória da Faculdade de Medicina da UFMG.

Nos anos 1960, ele documentou a avaliação médica de Berenice, garota que permitiu a Carlos Chagas descobrir, em 1909, a doença que levaria o nome do cientista mineiro. “Na ocasião, empenhei-me no sentido de identificar Berenice completamente, e provar que se tratava da mesma menina examinada décadas antes por Carlos Chagas. A investigação histórica, paralela à clínica e parasitológica, me ajudou a desenvolver habilidade como historiador e acabou me transformando em especialista em história da medicina”, relata.

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