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Exposição reúne obras do acervo da UFMG produzidas por mulheres


Publicado em: AgendaInternas - 9 de março de 2018

Universo feminino é retratado por Yara Tupinambá, Marlene Trindade, Sandra Bianchi e Teresinha Soares, entre outras artistas

Obra de Yara Tupynambá. Foto: Raíssa César/UFMG

Em meados do século passado, a escritora francesa Simone de Beauvoir já alertava: “A representação do mundo, como o próprio mundo, é operação dos homens; eles o descrevem do ponto de vista que lhes é peculiar e que confundem com a verdade absoluta”. Foi aberta nesta quinta-feira, 8 de março, no saguão da Reitoria, uma mostra cujo objetivo é dar visibilidade a uma outra representação do mundo: aquela que, em uma resistência artística a essa perspectiva patriarcal, foi e continua sendo construída pelas mulheres artistas brasileiras. A mostra é o tema da principal reportagem da edição 2007 do Boletim UFMG.

Organizada pela Diretoria de Ação Cultural, com curadoria de artes visuais dos professores Christiana Quady e Fabrício Fernandino, do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Belas Artes, e curadoria literária de Vera Casanova e Leda Maria Martins, da Faculdade de Letras, a exposição Feminæ (em latim, a palavra remete a tudo aquilo que é relativo à mulher) é composta de 19 obras que, produzidas por mulheres e alusivas ao universo feminino, integram o acervo artístico da UFMG. A elas foram acrescidos trabalhos de seis artistas visuais contemporâneas e textos de 13 escritoras brasileiras, várias delas integrantes ou ex-integrantes da comunidade acadêmica – de Adélia Prado a Ana Martins Marques, de Orides Fontela a Conceição Evaristo.

“Esta é uma exposição concebida como um tributo às muitas mulheres artistas e escritoras que passaram pela UFMG e deixaram aqui sua marca”, afirma a vice-reitora Sandra Goulart Almeida, acrescentando que essas vozes foram “tantas vezes silenciadas ou ignoradas”. “Assim”, ressalta a professora, “o que esperamos é que as obras e os textos expostos nos sirvam de inspiração e de resgate de uma memória sempre por reconstruir”.

O carro-chefe é a obra Morrem tantos homens e eu aqui tão só, de autoria de Teresinha Soares. Com crescente prestígio no cenário nacional e internacional, o trabalho foi recentemente levado a Londres para ser exposto na galeria britânica Tate Modern, especializada em arte moderna. “Esse empréstimo exemplifica o trabalho que a atual gestão da DAC tem feito com o intuito de organizar e dar visibilidade ao acervo artístico da UFMG”, analisa a professora Leda Maria Martins, diretora de Ação Cultural. Durante o último ano, uma série de exposições temáticas com obras do acervo foram levadas aos campi da Universidade em comemoração aos 90 anos da UFMG.

Todas as obras e textos traduzem, por meio de uma linguagem criativa, refinada e complexa, o poder de expressão estética dessas mulheres, sua sensibilidade poética”, assevera a curadoria literária da exposição. “De certa forma, estamos falando do mundo da poesia. Para a exposição, selecionamos textos que tratam da questão da mulher: tanto aqueles que caracterizam mais a própria autora, quanto escritos que representam mais seu olhar sobre o mundo”, detalha a professora Vera Casa Nova, da Faculdade de Letras da UFMG, e uma das curadoras literárias de Feminæ.

Viés político
A curadora Christiana Quady destaca o caráter inevitavelmente político da exposição. “Mostras como esta revelam narrativas sobre obras e artistas que, muitas vezes, foram empurradas para as periferias da história das artes e impedidas de alcançar distinção e legitimidade”, afirma. A curadora lembra que esse tipo de mostra não é exatamente uma novidade: “Exposições com esse perfil surgiram nos anos 1970, na esteira dos movimentos históricos relacionados à temática feminista. Foi quando se perceberam mais claramente as limitações impostas às mulheres, as limitações dos papéis que lhes eram oferecidos na sociedade e nas artes”.

Uma consequência dessa histórica privação pode ser notada nos espaços do cânone relegados às obras dessas artistas – e um exemplo é o próprio acervo artístico acumulado pela UFMG ao longo de sua história: das quase 1.700 obras que constam na coleção, menos de cem foram produzidas por mulheres.

Christiana Quady explica que, além de destacar as obras e artistas listadas, os curadores também buscaram realçar a diversidade e o ineditismo dos materiais usados e a quebra ou ruptura das hierarquias entre eles, uma particularidade da atuação feminina no campo das artes visuais. “No decorrer dessas décadas, em razão desse lugar à margem, as mulheres começaram a explorar materiais não institucionalizados nem considerados nobres”, conta a curadora. Exemplo dessa aplicação são as obras de tapeçaria da artista Marlene Trindade, que integra a exposição. “Ex-professora da Escola de Belas Artes, Marlene foi a principal introdutora da fibra e da tapeçaria na arte do Brasil”, informa o professor Fabrício Fernandino, também responsável pela curadoria artística.

Produzida pelas arquitetas Branca ­Peixoto e Bruna Cosfer, a expografia da mostra também é um indicativo dessa perspectiva criativa: em vez de se limitarem a oferecer suporte para as obras, as estruturas cenográficas reforçam sua temática. “Trabalhamos com tecidos e estruturas de ferro, simbolizando a leveza e, ao mesmo tempo, a força da mulher. Também sobrepusemos tecidos opacos e translúcidos, de forma a aludir à multiplicidade e complexidade feminina, em suas várias camadas”, explica Branca. Graduadas pela UFMG, as arquitetas dispuseram os tecidos de forma que sugerissem a conexão entre as obras – metáfora para a ideia de sororidade.

Exercício da diversidade
Feminæ reúne tapeçaria, escultura, instalação e telas. Para a diretora da DAC, a exposição representa um marco. “O que buscamos com ela é destacar a importância e os saberes dessas mulheres que fizeram e fazem parte da história da UFMG. A presença da mulher na Universidade foi e continua sendo importante não como ilustração, mas como competência instalada”, sustenta Leda Maria Martins. Ela integra o grupo de escritoras com textos incluídos na exposição. “Como diretora da DAC, o meu olhar sobre a cultura é o olhar que vem da poeta. Penso que a arte é um meio privilegiado de exercício da diversidade – algo tão caro ao nosso tempo”, diz.

A exposição foi desenhada, quase em sua totalidade, por mulheres. “A coordenação, parte da curadoria, parte da produção, as arquitetas da expografia, a designer, a relações públicas, a conservadora das obras, a revisora, a gerente financeira, as bolsistas – houve sempre o cuidado de priorizar mulheres na equipe em consonância com a temática da exposição”, destaca a curadoria da mostra.

Exibição: segunda a sexta-feira, das 8h às 18h
Local: Saguão da Reitoria, campus Pampulha
Escritoras: Adélia Prado, Ana Caetano, Ana Martins Marques, Conceição Evaristo, Laís Corrêa de Araújo, Leda Maria Martins, Lucia Castello Branco, Maria Esther Maciel, Orides Fontela, Ruth Silviano Brandão, Salete Maria, Sônia Queiroz e Vera Casa Nova
Artistas do acervo: Ana Horta, Andréa Mendes, Anna Amélia Lopes Rangel, Arlinda Côrrea Lima, Beatriz Coelho, Fayga Ostrower, Inês de Melo Sá, Irene Abreu de Paula, Letícia Grandinetti, Lúcia Marques, Marília Gianetti Torres, Marlene Trindade, Noêmia Motta, Paula Regis Junqueira, Sandra Bianchi, Teresinha Soares, Terezinha Veloso, Virgínia de Paula e Yara Tupynambá
Artistas convidadas: Annie Rottenstein, Christiana Quady, Dyana Santos, Mônica Sartori, Patricia Franca-Huchet e Telma Chaves

 

Redação: com Cedecom/UFMG

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