Estudante da Faculdade de Medicina, Adana Kambeba. Foto: Carol Morena.

A medicina indígena e a convencional não só devem caminhar juntas, como existe um esforço de instituições de vários países para que isso ocorra dentro do espaço acadêmico. Na Faculdade de Medicina da UFMG, a integração já acontece nas salas de aulas, por meio do Programa de Vagas Suplementares para Estudantes Indígenas. Três indígenas já se graduaram, uma está em curso e outros dois devem iniciar neste semestre. Fora das salas, a busca é por fortalecer redes de colaboração para que esse intercâmbio seja feito por “plataformas de tradução do conhecimento”, jargão usado para identificar as equipes de especialistas em transformar evidência científica em políticas públicas.  

Foi com esse propósito que o professor do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina, Ulysses Panisset, desembarcou no Canadá, no último mês. Ele participou de evento promovido pela Escola de Saúde Pública da Universidade de Alberta. O objetivo foi dialogar sobre as melhores formas de integrar o conhecimento obtido através de métodos científicos ao conhecimento tácito, que vem da sabedoria de vida dos povos indígenas.

“No Canadá, existe esse entendimento de que ‘as primeiras nações’, como chamam os povos indígenas, têm direitos adquiridos e conhecimentos que podem beneficiar toda a sociedade canadense”, enfatiza o professor. No Brasil, no entanto, a perspectiva ainda é outra. “O preconceito e a ignorância sobre a riqueza da nossa cultura indígena é sempre uma barreira para a influência desses povos e tem que ser combatida com medidas práticas, como o programa de inclusão da UFMG”, alerta o professor.

Política de inclusão

A UFMG conta, desde 2009, com o Programa de Vagas Suplementares para Estudantes Indígenas, que se tornou permanente em 2016. A estudante do 11º período da Faculdade de Medicina, Adana Kambeba, que atende também pelo social de Danielle Soprano Pereira, foi aprovada em vestibular específico para povos indígenas e pretende somar os conhecimentos da medicina tradicional à científica oficial.

 “O curare, por exemplo, é uma planta usada pelos indígenas durante a caça, que tem ação paralisadora. Atualmente, o curare é utilizado nos hospitais como anestésico durante as cirurgias, por ser um bloqueador neuromuscular”, exemplifica Adana.

Também convidada a participar do evento na Universidade de Alberta, no Canadá, ela levou a visão de povos da região amazônica e de redes indígenas de outras partes do Brasil. Segunda Adana, o encontro foi importante para conhecer e ouvir outros “parentes” indígenas, ou irmãos, que é como os povos indígenas de todo o mundo se denominam.

“No encontro, os pesquisadores indígenas do Canadá trataram sobre estratégias de saúde pública para doenças não transmissíveis, problema presente em aldeias de todo o mundo ”, comenta.

Convivência 

Para o professor Ulysses Panisset, a convivência com os estudantes indígenas cria um ambiente de aprendizado mutuamente privilegiado. “A maior contribuição é o ensino e a prática do amor à natureza e proteção de ecossistemas delicados, e entender que a sabedoria milenar acumulada nos povos indígenas pode beneficiar a vida deles e de outros brasileiros”, comenta.

De acordo com o professor, o uso sustentável dos extratos medicinais, que são exaustivamente pesquisados dentro e fora do país, é um exemplo de sabedoria que deve ser aprendida com a população indígena. “Existe muita cobiça internacional pelos extratos medicinais da Amazônia, por exemplo. Nossa diversidade é ainda gigantesca”, completa.

A estudante de Medicina, Adana Kambeba, também vê com bons olhos a convivência entre os estudantes de diferentes etnias. “Muitas pessoas não têm acesso ao conhecimento dos povos indígenas e passam a ter por meio da nossa própria voz, da nossa fala, sem mediação, e dos nossos comportamentos e posturas. Alguns professores e alunos até nos agradecem por compartilhamos um pouco da nossa cultura. Temos muito a contribuir também”, ressalta.

 O caminho da volta

O chamado “estilo de vida moderno” cria hábitos alimentares inadequados e que podem resultar no desenvolvimento das doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão e enfermidades do coração. Segundo a Organização Mundial da Saúde, anualmente, mais de 15 milhões de pessoas com idade entre 30 e 70 anos morrem por conta dessas doenças, que já afetam a população indígena.  

No Brasil, por exemplo, o Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição Indígena mostra crescimento das doenças não transmissíveis principalmente na região Centro-Oeste, Sul e Sudeste. Nessas regiões, o sobrepeso e a obesidade já atingem mais de 50% das mulheres.

De acordo com o professor Ulysses, a promoção da saúde e a prevenção de doenças não transmissíveis, como diabetes e hipertensão, devem ser foco no processo de formulação de políticas para a população indígena. “Sempre do ponto de vista da equidade em saúde e do estudo dos determinantes sociais da saúde”, avalia.

Para Adana, é preciso fazer o “caminho da volta às origens”, o que envolve a alimentação. “A nossa alimentação, no geral, é muito variada e saudável. Mas temos deixado a comida industrializada ganhar espaço no nosso dia a dia. E mesmo sendo povos indígenas de continentes longínquos, de língua, culturas, conhecimentos e tradições diferentes, estamos compartilhando dos mesmos problemas de saúde. Então, precisamos pensar no caminho da volta para a origem da nossa alimentação, de como os nossos avós, bisavós e os mais antigos se alimentavam”, frisa a estudante.

De acordo com ela, o embasamento científico é essencial para o fortalecimento de políticas públicas. “Os pesquisadores indígenas conversam para que, dentro dos padrões científicos, seja possível traçar estratégias que poderão ser aplicadas aos povos de diferentes regiões do país e do mundo por meio de políticas públicas”, conclui.

    Contador de visitas: 609 visualizações

    Veja também: