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É possível evitar crises de convulsões com diagnóstico e tratamento

75% dos pacientes em países emergentes não recebem qualquer tipo de tratamento


    09 de setembro de 2019 - , ,


    *Alexandre Bueno

    Até 70% das pessoas que convivem com a epilepsia poderiam evitar crises de convulsões, se propriamente diagnosticadas e tratadas. É o que aponta o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se que mais de 50 milhões de pessoas sejam afetadas pela doença em todo o mundo. A questão é que a falta de diagnóstico e tratamento pode trazer riscos graves à saúde dessas pessoas e contribuir para uma piora das crises convulsivas.

    A epilepsia é uma afecção cerebral, isto é, alteração patológica que é caracterizada por episódios convulsivos causados por perturbações nas atividades elétricas do cérebro. As convulsões podem gerar movimentos corporais involuntários, perda de consciência e das funções de ventre e bexiga. A longo prazo, a persistência das crises pode causar danos permanentes à estrutura neurológica, tornando o paciente ainda mais predisposto aos episódios epilépticos.

    “Além disso, um paciente que sofre com crises há 10, 20 anos, ele tem maior risco de acidentes, maior comprometimento de memória, prejuízos cognitivos e laborais”, conta a neurologista e neurofisiologista Ana Paula Gonçalves, médica assistente do Ambulatório de Epilepsia Refratária do Hospital das Clínicas da UFMG.

    De acordo com a especialista, apesar de não terem dados específicos sobre a epilepsia no Brasil, é preciso atenção à afecção. O mesmo relatório da OMS afirma que 75% das pessoas que sofrem de epilepsia em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento não recebem qualquer tipo de tratamento.

    Para Ana Paula Gonçalves, o desconhecimento e estigma em torno da epilepsia dificulta o diagnóstico e, consequentemente, o tratamento. “Fala-se pouco sobre epilepsia. Quem tem a doença costuma preferir não contar, a amigos e familiares sobre as crises convulsivas, o que dificulta muito o acesso ao tratamento”, comenta.

    Por isso, na avaliação da neurologista, é importante que os indivíduos que estejam sofrendo com crises convulsivas, e seus familiares, se esforcem para superar o estigma e procurem um profissional de saúde. “Com o tratamento disponibilizado através do SUS, a grande maioria dessas pessoas poderia viver livre de crises através do controle medicamentoso”, explica.

    “Há, também, a dificuldade no acesso a certos medicamentos anticonvulsivantes mais novos, que ainda não estão disponíveis pelo SUS, que são geralmente mais caros”, complementa o professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, Paulo Pereira Christo. Ele também cita a escassez dos serviços especializados em cirurgia de epilepsia como um ponto que dificulta o acesso ao tratamento.

    Também é importante que amigos e familiares saibam como proceder durante episódios convulsivos, como mostra a imagem abaixo:

    Como é feito o diagnóstico?

    O diagnóstico é realizado, principalmente, através de uma análise detalhada do histórico do paciente. É importante que ele tenha um histórico bem definido de crises recorrentes. Também é necessário que se excluam diagnósticos diferenciais, isto é, outras situações de saúde que possam simular as crises convulsivas, a exemplo da queda de pressão e da hipoglicemia.

    Em alguns casos, pode existir a necessidade da realização de exames adicionais. “O profissional pode optar por solicitar um exame de imagem, como uma tomografia ou uma ressonância magnética”, detalha a neurofisiologista.

    Pré-natal contra a epilepsia 

    Algumas das principais causas da epilepsia são originárias de condições precárias de saúde. “Muitos dos casos estão relacionados a um pré-natal precário, a condições inadequadas de parto, que podem causar uma paralisia cerebral. Ou ainda a um trabalho de parto prolongado que pode resultar em hipóxia – falta de oxigenação cerebral”, exemplifica Ana Paula.

    Segundo a médica, uma das maneiras mais eficientes de se combater essa afecção é com o aumento da qualidade do trabalho de pré-natal e de acompanhamento de parto. Outra causa comum das crises convulsivas é a neurocisticercose – infecção cerebral pela forma larval do verme Taenia solium, popularmente conhecida como solitária. Assim, melhores condições sanitárias também contribuem para a prevenção da epilepsia.

    Outros causadores da afecção incluem acidentes vasculares cerebrais, traumatismos cranianos e infecções cerebrais como a meningite.

    Acesso ao tratamento

    Ana Paula estima que 80% dos casos de epilepsia são tratáveis à base de medicamentos. “Apenas os outros 20% se apresentam refratários à medicação. Nesses casos, temos que pensar em outras alternativas, como o tratamento cirúrgico ou dietas cetogênicas”, continua a médica. As dietas cetogênicas são rearranjos alternativos entre os macronutrientes que compõe a alimentação. Nelas, a principal fonte de energia do indivíduo passa a ser a gordura, enquanto proteínas são consumidas de forma moderada, e os carboidratos em quantidades mínimas.

    De acordo com a especialista, o tratamento medicamentoso está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). Parte dos medicamentos é distribuída pela Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, como o ácido valpróico e o fenobarbital, enquanto a oferta de outros fármacos, como a lamotrigina e o topiramato, é feita pela Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais.

    Além dos ambulatórios de neurologia geral, onde são tratadas as epilepsias de fácil controle, o Hospital das Clínicas da UFMG conta com dois ambulatórios para o tratamento da epilepsia refratária, aquela em que o tratamento medicamentoso não é suficiente para evitar as crises.

    E quando os medicamentos não são suficientes?

    “Após realizar os testes medicamentosos, os pacientes que apresentam casos refratários são encaminhados para a realização do vídeo-EEG, uma variação do eletroencefalograma”, explica Ana Paula. Para a realização desse exame, o paciente é internado. Assim, a dose medicamentosa do paciente é reduzida e a crise convulsiva é registrada em vídeo, enquanto os eletrodos do eletroencefalograma gravam sua atividade elétrica cerebral.

    A partir do vídeo-EGG, da ressonância magnética e da avaliação neuropsicológica, é possível mapear a origem das crises convulsivas e encaminhar o paciente tratamento cirúrgico.

    Para mais informações sobre os tratamentos para epilepsia oferecidos pelo Hospital das Clínicas da UFMG, consulte o Departamento de Neurologia do Ambulatório Bias Fortes: 3307-9536 / 3307-9540 / 3307-9902

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    edição – Karla Scarmigliat