Faculdade de Medicina

Universidade Federal de Minas Gerais


O fanatismo e os riscos para a saúde


Publicado em: EntrevistasNotícias - 1 de outubro de 2012

Um grito de gol mais acalorado ou um discurso político ou religioso exagerado. Tais situações fazem parte do nosso cotidiano, mas há um limite aceitável dentro desse universo. Se a pessoa “passa do ponto”, um tema bastante polêmico vem à tona: o fanatismo. Afinal, como defini-lo? O psiquiatra Fernando Neves, professor do departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, esclareceu algumas dúvidas sobre o assunto.

Professor Fernando Neves

Assessoria de Comunicação Social – Quais as implicações do fanatismo na vida de uma pessoa?

Fernando Neves – Em geral, quando uma pessoa acha que existe uma resposta única para as questões que a envolve, ela costuma não respeitar outros pontos de vista. Isso pode se tornar um hábito de vida, fazendo com que ela estabeleça uma crença muito forte sobre determinado assunto, com fundamentos já estabelecidos. O resultado de tal postura é uma dificuldade da pessoa para escutar a opinião do outro e, consequentemente, ela poderá sofrer em seus relacionamentos pessoais e até profissionais.

ACS – E os problemas de saúde relacionados ao fanatismo?

FN – Um indivíduo que adere ao uso de medicamentos naturais para seus problemas de saúde, por exemplo, tende a ter dificuldades para se convencer que tais medicamentos também podem ser perigosos, já que não há ensaios controlados suficientes. Ele, então, deixa de seguir a medicina alopática e isso pode lhe causar problemas. Seu modo de agir pode se basear em uma crença sem fundamento científico.

ACS – Quais seriam os tipos de fanatismo mais comuns? Há algum tipo que pode ser considerado mais perigoso para a sociedade?

FN – Fanatismo esportivo, principalmente pelo futebol, político ou religioso podem ser perigosos, porque às vezes a pessoa acha que ideias derivadas desses assuntos irão resolver todos os problemas da vida dela. Reforço que essas pessoas não estão abertas para um debate democrático. E a vida é muito complexa, ou seja, nada pode se esgotar em um pensamento ou em um modelo.

ACS – Como ele pode ser detectado?

FN – Traçando um diagnóstico psiquiátrico, o fanatismo se aproxima mais de um quadro psicótico. Ele poderia se incluir em uma situação de transtorno delirante persistente. O grave é que os fanáticos podem viver em prol de uma causa. Eles tentam impor suas crenças para as outras pessoas, podendo inclusive ter comportamentos agressivos. Então eles vão sempre querer ficar perto de pessoas que têm opiniões semelhantes e, de um modo geral, isso causa o empobrecimento da vida.

ACS – Existe um padrão de comportamento do fanático?

FN – O fanático com o futebol, por exemplo, geralmente tem um comportamento agressivo, até violento. Ele pode se juntar a determinados grupos e o questionamento se tornar ainda mais complicado, mesmo de pessoas próximas a ele. Em grupo, o fanático é mais perigoso, e essa “reunião de pensamentos similares” pode gerar uma ruptura do tecido social do indivíduo.

ACS – Existe tratamento para o problema?

FN – Deve-se avaliar primeiro qual é o diagnóstico psiquiátrico que explica o comportamento do indivíduo. Se for um quadro psicótico inoperante, por exemplo, o psiquiatra pode indicar um tratamento baseado nesse quadro.

ACS – O fanatismo pode ser considerado um tipo de loucura?

FN – Ele é um sintoma da loucura, que pode estar presente em vários diagnósticos psiquiátricos, relacionados aos quadros psicóticos.

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