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“É um pesadelo”, desabafa atingido pela barragem da Samarco

Três anos e meio após a queda da barragem, atingidos sofrem com os danos.


    07 de maio de 2019 -


    População atingida sofre com problemas como depressão e transtorno de ansiedade

    Nathalia Braz*

    Foto: Felipe Werneck/ IBAMA

    Três anos e meio após o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, no subdistrito de Bento Rodrigues, em Mariana, a população ainda sofre com os impactos. Além dos danos ambientais causados pelo derramamento de lama de rejeitos de minério no Rio Doce, os atingidos sofrem com problemas de saúde: estudo da Faculdade de Medicina aponta que cerca de 30% dos atingidos desenvolveram depressão. O comerciante e morador de Bento Rodrigues, Mauro Silva, descreve a situação como um “pesadelo que nunca acaba”. Os danos causados pelas barragens são o tema do Saúde com Ciência desta semana.

    Mauro lembra que teve dificuldade em ser reconhecido como atingido pela mineradora Samarco, responsável pela barragem e, por isso, integra a comissão de atingidos. “São reuniões intermináveis, praticamente uma atrás da outra e todos os dias da semana. Apesar disso, pouco se resolve”, detalha. O morador de Bento Rodrigues ressalta que o clima de desânimo tem prevalecido. “O tempo vai passando, as pessoas adoecendo e muitas até com depressão. Se você pegar pessoas de Bento ou Paracatu de Baixo [subdistrito que também sofreu com o desabamento], que foram atingidas por esse desastre, poucas têm esperança que as coisas vão resolver em um curto espaço de tempo”, conclui.


    “O tempo vai passando, as pessoas adoecendo e muitas até com depressão”.

    Mauro Silva, comerciante e morador de Bento Rodrigues


    No entanto, mais que uma impressão, estudo do Núcleo de Pesquisa em Vulnerabilidade e Saúde (Naves) da Faculdade de Medicina da UFMG – projeto batizado de Prismma – pesquisou sobre a situação atual da saúde de famílias atingidas pelo desastre, com ênfase na saúde mental dos indivíduos e comprovou que quase 30% dos atingidos desenvolveram depressão. Para se ter uma ideia, 5,8% dos brasileiros têm a doença, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

    “Elas [pessoas atingidas pela queda da barragem] têm um índice muito alto de doenças mentais associadas ao desastre. Depressão, transtorno do estresse pós-traumático, transtorno de ansiedade, transtorno por uso de substâncias como álcool e drogas, além de comportamento suicida”, aponta uma das coordenadoras do estudo, a médica psiquiátrica e professora do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, Maila Castro Neves.

    A médica alerta que a situação é bastante preocupante, porque torna essa população vulnerável. “Mesmo após dois anos, algumas pessoas relatam que tem medo de estarem contaminadas, outras relatam que sofrem discriminação, que estão fora de casa… todos esses fatores contribuem para o aumento dos índices de adoecimento”, explica a pesquisadora. “Além disso, a gente viu que essas pessoas têm índices elevados de sintomas cardiovasculares comparados à população geral”, adiciona.

    Estudo desenvolvido pelo Naves avaliou a saúde dos atingidos de Bento Rodrigues. Arte: CCS Medicina

    Para melhorar a situação, algumas ações foram desenvolvidas para atender a demanda do acompanhamento da saúde dos atingidos. Segundo a psiquiatra, a prefeitura de Mariana disponibilizou acompanhamento psicológico para a comunidade. O site da prefeitura informa que os servidores da Secretaria de Desenvolvimento Social e Cidadania ficaram responsáveis pelo acolhimento às famílias atingidas e se envolveram diretamente com o recebimento, organização e distribuição dos milhares e donativos, além do acompanhamento psicológico.

    Já a assessoria de comunicação da Samarco informa que a Fundação Renova foi criada para atender às demandas dos atingidos e que desenvolvem ações de apoio à saúde física e mental, além de estarem elaborando um estudo epidemiológico e toxicológico que irá identificar o perfil das comunidades, de Mariana até a foz do Rio Doce, antes e após o rompimento, a fim de avaliar os riscos e suas correlações.

    Os números da tragédia. Arte: CCS Medicina

    Sobre o programa de rádio

    Saúde com Ciência é produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG e tem a proposta de informar e tirar dúvidas da população sobre temas da saúde. Ouça na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM) de segunda a sexta-feira, às 5h, 8h e 18h.

    O programa também é veiculado em outras 145 emissoras de rádio, distribuídas por todas as macrorregiões de Minas Gerais e nos seguintes estados: Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe, Tocantins e Massachusetts, nos Estados Unidos.

    Também é possível ouvir o programa pelo serviço de streaming Spotify.

    *Nathalia Braz – estagiária de jornalismo

    Edição: Maria Dulce Miranda