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Doença de Chagas ainda é preocupação no Brasil


Publicado em: ExternasSaúde - 3 de julho de 2017

Ives Teixeira Souza*

 

Cento e dez anos depois da descoberta do Trypanosoma cruzi a doença ainda vitima milhões de brasileiros

 

O barbeiro é o principal vetor da doença. Foto: Reprodução – Portal da Saúde

Em 1907 o pesquisador Carlos Chagas identificou em Lassance, município do norte mineiro, o Trypanosoma cruzi, protozoário responsável por transmitir a Doença de Chagas. Quase cem anos depois, o Brasil recebeu, em

2006, da Organização Mundial da Saúde, o Certificado Internacional de Interrupção da Transmissão da doença pelo Triatoma infestans (conhecido como barbeiro), o principal vetor domiciliar da doença de Chagas. “A transmissão pelo inseto já é considerada interrompida aqui, mas há outras formas de transmissão”, explica o professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, Enio Pietra. “Mas é impossível no momento atual, de evolução do Trypanossoma cruzi e da forma de transmissão, dizer que a doença pode ser erradicada, porque ela continuará sendo uma zoonosse, que é quando a infecção ocorre por meio de outros animais”, esclarece o professor.

Ainda que com um amplo programa de controle realizado pelo Estado, a doença continuou presente através da transmissão por meio de sangue ou transplante de órgãos, a ingestão dos protozoários junto com alimentos, além da eliminação das fezes do protozoário enquanto este se alimenta de sangue humano.

Enio adverte, ainda, que a transmissão de mães para filhos pode ocorrer numa variação que vai de 2% até quase 20%, dependendo de quais são os registros consultados, o que aumenta a necessidade de acompanhamento da gestação dessas mulheres. “Nós ainda conviveremos com muitas mulheres portadoras da doença de chagas e que estão em vida fértil, portanto, com risco de transmissão”.


Aumento dos casos

Estimativas recentes, divulgadas no Consenso Brasileiro sobre Doença de Chagas, realizado ano passado, indicam que o número de pessoas infectadas no país varia de 1,9 milhão a 4,6 milhões de pessoas. Nos últimos anos, a transmissão oral da doença foi uma das principais responsáveis pelo aumento do número de casos agudos de Doença de Chagas.

Como explica a professora do Departamento de Clínica Médica, Rosália Torres, que coordenou a parte de cardiopatia chagásica do Consenso, esse número elevado de infectados é devido ao envelhecimento da população chagásica e às outras formas da transmissão que não foram controlados. “Hoje esses pacientes têm, em média, de 30 a 50 anos. Muitos já morreram, já que a doença leva à morte súbita. Além disso, a partir do infestans que não desapareceram, mas foram quase dizimadas, essas outras espécies estão assumindo o lugar dele”, aponta. “Daqui a pouco também começa a aparecer criança infectada por insetos. Esses casos vão ser cada vez mais frequentes e há médicos achando que doença de Chagas não existe mais. Esse é um problema que chama a atenção”, continua.

Os casos acontecem, principalmente, na região Amazônica e a transmissão é por meio da ingestão de alimentos contaminados com o protozoário, entre eles o açaí, caldo de cana e palmito de babaçu.  Entre 2005 e 2013, o Ministério da Saúde contabilizou 112 surtos na região, mas dados recentes, segundo o Consenso, também indicam registros de surtos em outros estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia, Paraíba e Ceará.

Segundo a professora, os técnicos responsáveis pelo diagnóstico de malária na região amazônica estão sendo treinados para também identificar a doença de Chagas, sendo que essa preocupação com o diagnóstico ainda não acontece em outros lugares. “Quando há febre ou caso agudo, também se pensa em doença de Chagas. Aqui não, porque temos formas crônicas e os pacientes já são mais velhos. Mas o retrato para o futuro, daqui a vinte anos, pode ser de crianças contaminadas por outros insetos além do que foi erradicado”, adverte Rosália.

Outro fator de preocupação para os especialistas é a ampliação do número de migrantes para outros países que têm a infecção por doença de Chagas. Estima-se, por exemplo, que na Europa há aproximadamente 70 mil pessoas infectadas com o Trypanosoma cruzi, o que amplia ainda mais os riscos e a vulnerabilidade da doença. Além disso, o aumento no número de imigrantes de países endêmicos, como a Bolívia, é outra fonte de preocupação para a transmissão de novos casos.

Ações integradas
De acordo com os dados do Consenso, de 1999 a 2007, por exemplo, 40% das mortes esperadas associadas à doença de Chagas na América Latina ocorreram no Brasil. Entre as doenças infecciosas e parasitárias, ela ainda foi a quarta causa de morte (10,8%) no país.

Rosália destaca a necessidade de ações integradas entre os sistemas de saúde para a prevenção e o tratamento da doença, além da necessidade da melhor formação dos médicos na área. “Por envelhecer, essas pessoas começaram a apresentar um perfil diferente, com problemas de saúde como diabetes, hipertensão ou doenças das coronárias, por exemplo, junto à Chagas”, conta. “A doença fica muito mais complexa para o médico. Ou seja, esse perfil está mudando e trazendo uma grande complexidade para o controle clínico do paciente chagásico”, completa.

Segundo a professora, a expectativa é que diante das mudanças identificadas no perfil da doença de Chagas nos últimos anos no Brasil, ela possa ganhar novamente a visibilidade que necessita, com esforços nas áreas de pesquisa e conscientização da população sobre a doença.

Doenças negligenciadas
Saúde com Ciência, programa de rádio produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG, transmite, essa semana, série sobre as doenças negligenciadas, grupo que a doença de Chagas está inserida.

Leia a matéria completa e ouça o programa.

*Redação: Ives Teixeira Souza- estagiário de jornalismo

Edição: Mariana Pires

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