Faculdade de Medicina

Universidade Federal de Minas Gerais


Chacinas policiais trazem consequências sociais tão assustadoras quanto o número de vítimas            

TV_MEDICINA_FINALIZADA[1]A exibição do filme “À queima roupa”, com direção da Theresa Jessouroun, será o ponto de partida para o debate que ocorrerá no “Seminário ética e direitos de todos à vida”, na quarta-feira, 10 de junho, no Salão Nobre da Faculdade de Medicina da UFMG.  Com entrevistas, imagens de arquivo e cenas ficcionais, o documentário reconstrói a memória dos sobreviventes e retrata os últimos 20 anos de chacina no Rio de Janeiro, desde 1993.

O filme ganhou os prêmios de Melhor Direção e Melhor Documentário no Festival de Cinema do Rio em 2014. Segundo Theresa as pessoas ficaram chocadas, já que os corpos das vítimas e a forma como a polícia invade as casas nas periferias não são cenas de costume das áreas de classe alta, por exemplo, seja no Rio ou em outros estados. “O filme mostra fotos e imagens de coisas que ninguém que ver. Quando os jornais colocam uma foto de uma morte, os assinantes reclamam dizendo que não querem ver aquilo na porta deles”, comenta. O ponto de partida é a chacina no Vigário Geral que apresentou a corrupção e violência da polícia em 1993.

Experiência com as filmagens
Ainda que ciente destes acontecimentos e de inúmeros estudos sobre a violência da polícia e do número de mortes diárias, a vivência nesta realidade surpreendeu Theresa enquanto fazia o filme. “Tudo isso é muito bem pesquisado, mas ninguém fala do legado social que acontece, do abando em que essas pessoas ficam, pois não sabem a quem recorrer”, afirma. “Eu não imaginava o drama social que acontece nas favelas, periferias e todas as comunidades onde a polícia atua desta maneira e como essas pessoas são abandonadas pelo Estado. Eu não tinha noção porque isso não é divulgado”, alega.

Ela explica que quando um parente inocente, por exemplo, é morto pelo Estado, as pessoas não sabem que têm o direito de indenização, nem que podem recorrer a um defensor público caso não possam pagar por advogados. “Elas também têm muito medo, pois quem denuncia algo na favela é perseguido e pode ser morto. Um dos casos tratados no filme é de uma vizinha que viu quem matou e denunciou. Os responsáveis foram na casa dela para matá-la e, não a encontrando, mataram o filho”, conta Jessouroun. “Tem um caso que filmei que não entrou no documentário de uns jovens comemorando o aniversário em uma quadra. Um saiu para ir ao banheiro e foi morto por um policial. Aí fica por isso mesmo porque se alguém denuncia é ameaçado. Inclusive, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) já foi instalada nessa região”, continua.

Debate
Como debatedora convidada do seminário, Theresa acha relevante e necessário levar a discussão sobre o direito à vida e a ética para todos os ambientes, com participação ampla. “Quando as pessoas refletem e tomam consciência dessa realidade, passam a ser duplicadoras deste assunto. Quanto mais pessoas falarem e pensarem sobre esta questão, melhor. Elas têm que passa a cobrar do Estado também”, argumenta. Para ela, a mídia até tem divulgado, denunciado e questionado sobre isso. É o governo que não está fazendo seu papel.

“A polícia tem que ter um treinamento melhor porque ela não pode ser treinada para matar inimigo, como se fosse uma guerra. Se há algo a ser combatido, o caminho é prender e investigar, não sair matando”, expõe. Tal naturalização dos massacres foi vista por Jessouroun no Complexo do Alemão, quando a polícia estuprou e matou 13 adolescentes enquanto seus namorados que assistiram às cenas. “Essa violência toda que está acontecendo é resultado da guerra contra o tráfico, que sabemos que é uma guerra perdida porque a violência acontece por causa da polícia que vai para os morros onde tem droga à venda”, pontua. “A polícia fica ali e recebe para deixar passar o tráfico, se não pagam, eles matam as pessoas. Antes ainda havia a “gratificação faroeste” instituída pelo governador do Rio de Janeiro pelo qual premiava as pessoas que combatiam mais violência, ou seja, ganhavam por matar mais”, completa.

Em continuidade, Theresa aponta três mudanças para solucionar ou amenizar as falhas do sistema atual. A primeira é acabar com a guerra ao tráfico, legalizando as drogas, o que seria bom para o governo ganhar com imposto, segundo ela. Também é preciso haver uma reforma na polícia por melhores salários, aprendizado sobre direitos humanos e treinamento para situações de estresse. A outra questão que pode trazer benefício, embora seja um processo longo, é a desmilitarização da polícia, tornando a civil e militar uma só.

Seminário ética e direitos de todos à vida
O evento será realizado no dia 10 de junho, na Faculdade de Medicina da UFMG, com início às 18h30, no Salão Nobre da Faculdade. A entrada é franca, sem necessidade de inscrição prévia e aberto a toda população. Terá certificado e será considerado como Atividade Complementar Geradora de Crédito (ACGC) para alunos da Faculdade de Medicina da UFMG.

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