*Notícia publicada no Saúde Informa

Segundo pesquisa, pacientes com cirrose hepática relacionada ao abuso de álcool recebem menos apoio do que pacientes com hepatites B e C

A constatação da necessidade de um transplante de fígado é um momento delicado para o indivíduo e sua família. Mas vários fatores têm influência direta na maneira como as relações familiares e sociais se estabelecem após essa notícia. Este suporte social e o impacto que as doenças hepáticas causam na família foram objeto de estudo do psicólogo Clerison Stelvio Garcia, em dissertação de mestrado defendida em abril de 2013 na Faculdade de Medicina da UFMG.

Foto: Bruna Carvalho

O caráter do transplante foi destacado como um dos pontos mais delicados a serem enfrentados, tanto pela pessoa que espera por ele, quanto por sua família. “Todos têm consciência de que a cirurgia é a última alternativa para a sobrevida, que a pessoa poderá falecer se o transplante não for bem-sucedido”, explica o autor do trabalho.

Para ele, o diálogo franco é o melhor caminho. “A aproximação entre o paciente e seus familiares, com boa disponibilidade para troca justa de informações, é importante para superar este momento difícil”, orienta. A divisão de tarefas também facilita, evitando sobrecarregar apenas uma pessoa com todos os cuidados.

A própria reação do paciente durante o processo afeta a maneira como a família se comporta. “Os familiares sentem menos o impacto do diagnóstico quando o paciente se sente mais confortável e também os ajuda a passar por esse momento”, afirma Clerison. “Já quando o paciente apresenta encefalopatia – que se caracteriza por confusão mental, dificuldade de fala e de locomoção, a família sente mais as dificuldades”.

Fatores determinantes

As entrevistas dos 119 pacientes em espera para transplante de fígado no Hospital das Clínicas da UFMG e seus familiares mostram que o suporte oferecido a estas pessoas, em geral, se relaciona à assistência, ajuda material e expressão de afeto positivo. Escolaridade mais elevada e a ausência de doenças paralelas foram associadas a um menor impacto na família e ao maior suporte social para essas pessoas. Por outro lado, o indivíduo com mais complicações,em geral, gera maior impacto e, consequentemente,conta apenas com um pequeno núcleo de parentese amigos mais próximos.

A reação da família ao diagnóstico variou também de acordo com o motivo que levou à necessidade do transplante. Pacientes com cirrose hepática relacionada ao abuso de álcool recebiam menos suporte social do que pacientes com outros diagnósticos, como as hepatites B e C. O psicólogo atribui essa relação ao trabalho que esses pacientes já deram para a família devido ao alcoolismo,com possíveis episódios de agressões e constrangimento público. “O diagnóstico é encarado como mais um problema provocado por aquela pessoa, algo até certo ponto esperado”, afirma. “Nos outros casos, é mais comum a família ser pega totalmente de surpresa pelo diagnóstico”.

Métodos

Dois questionários foram utilizados no estudo para avaliar o tema. O primeiro, chamado “Inventário de Rede de Suporte Social” (SSNI, na sigla em inglês), avalia a quantidade e qualidade de relações sociais de um indivíduo. Já a“Escala de Zarit” mede a sobrecarga que os cuidados como candidato a transplante causam na família. Os resultados desses questionários foram também comparados com dados socioeconômicos desses pacientes.

A análise mostrou também a influência de fatores como sexo e idade do paciente. Pacientes mais jovens tiveram mais suporte social. Uma hipótese levantada foi a importância da presença e apoio dos pais, comum principalmente entre os pacientes com menos de 30 anos.

A família também sofreu maior impacto quando os candidatos a transplantes eram homens. Para Clerison, isso pode ser uma questão cultural, ainda focada no homem como chefe da família. “Em geral, esses pacientes estão em idade economicamente ativa, são os principais provedores da família, e esta dependência aumenta o sofrimento frente ao risco de morte deste parente”, conclui.

SERVIÇO

Título: O suporte social e o impacto na família de candidatos atransplante de fígado

Nível: Mestrado

Programa: Cirurgia e Oftalmologia

Autor: Clerison Stelvio Garcia

Orientador: Agnaldo Soares Lima

Defesa: 18/03/2013

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