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Crise hídrica faz repensar relação com o meio ambiente


Publicado em: ExternasSaúde - 7 de janeiro de 2015

 *Matéria publicada na edição 42 do Saúde Informa

Montante Bela Fama (2)

Alto Rio das Velhas próximo a Bela Fama, em outubro de 2014.

Mesmo com a chegada do período chuvoso, especialistas alertam para continuação dos cuidados com a água. Sistema que abastece capital esteve perto do limite.

O Brasil vive uma insegurança hídrica, que se agravou nos últimos meses. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro são os estados mais atingidos por essa crise no abastecimento de água. Em Belo Horizonte, com três meses de estiagem e termômetros em alta, que chegaram a 36°C por dias consecutivos, a situação começou a preocupar. Segundo o professor do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da UFMG e coordenador do Projeto Manuelzão, Marcus Vinícius Polignano, a falta de chuvas quase comprometeu o abastecimento de água do município e região metropolitana.

“A vazão do rio das Velhas, ao chegar no distrito de Bela Fama, em Nova Lima, está variando de 8 a 9 metros cúbicos por segundo (m³/s), quando o normal em períodos de seca como este deveria ser 12m³/s. Somente o abastecimento urbano da Grande BH vem captando 6m³/s, para atender 51 cidades, ou 60% do volume consumido na capital e 40% nos demais municípios. O que sobra para o leito do rio é muito pouco. Estamos praticamente sugando o rio das Velhas, retirando água além da sua capacidade, e isso tem um efeito também para a bacia”, afirma. De acordo com o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), que monitora a vazão em bacias de Minas, a estação apresentou vazão 10% inferior à considerada regular.

Segundo a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil, 164 municípios de Minas Gerais decretaram situação de emergência em função da seca ou estiagem. Na região metropolitana, pelo menos seis cidades já enfrentam o problema, segundo a Associação desses municípios.

Além de Minas, na região Nordeste, o rio São Francisco, que tem como um de seus principais afluentes o rio das Velhas, também passa por uma situação muito difícil. Com a falta de chuvas na região Sudeste, a principal nascente do rio praticamente secou. E as consequências apareceram perto da foz, na região Nordeste.

Em locais em que a água era abundante, surgiram imensos bancos de areia e as ilhas que não param de crescer servem de pasto para os animais. Entre os estados de Sergipe e Alagoas, a profundidade que era de dez metros, atualmente, não passa de dois, o que dificulta a navegação. A pouca água comprometeu também o cultivo nos projetos irrigados às margens do São Francisco, causando dificuldades nas plantações de arroz.

Um alerta dado pelo Projeto Manuelzão e especialistas diz respeito às chuvas de verão. Para o professor Marcus Vinícius Polignano, elas não resolverão o problema de imediato. “A chuva é só um elemento da cadeia da água. Se não tiver vegetação, matas ciliares, a água não é absorvida, o lençol freático não é alimentado e as nascentes secam”, explica.

Perspectivas
Estimativas apresentadas pelo Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar, dos Estados Unidos, apontam que em 2050 um total de 4,8 milhões de pessoas estará em situação de estresse hídrico. Atualmente, 40% da população do planeta já sofre as consequências da falta de água, o que acarreta danos ao abastecimento, além de graves implicações econômicas e políticas para as nações.

Para o coordenador do Projeto Manuelzão, a solução da crise não passa só pela conscientização dos indivíduos. “Não basta apenas responsabilizar o cidadão como se ele fosse um consumidor abusivo e o único culpado. É preciso pensar outro modelo de cidade, envolver os empresários e ações de Estado maiores”, declara, ao explicar que nas áreas urbanas é preciso repensar os empreendimentos. “É fundamental rever o modelo de cidade, adotando soluções que já existem em outros países como o reuso da água, captação de chuva e preservação de áreas estratégicas. Com a chegada do período chuvoso há uma tendência à acomodação. Temos que deixar de lado a falsa cultura criada de abundância de água no estado e país. Se medidas urgentes de proteção e revitalização de nossos rios não forem tomadas, a seca dos rios irá acontecer de tempos em tempos”, alerta.

Metas 2010 e 2014
O Projeto Manuelzão nasceu há 17 anos na Faculdade de Medicina da UFMG, e trabalha a saúde, conscientização e cidadania em prol da revitalização do rio das Velhas. Saiba mais sobre o projeto e as Metas 2010 e 2014 em www.manuelzao.ufmg.br.

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