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Campus Saúde e Departamento de Química criam larvicida para combater o Aedes nos bueiros

Projeto piloto testado no campus Saúde consegue reduzir a proliferação de larvas do mosquito Aedes aegypti em ambientes inóspitos


    21 de novembro de 2019 - , , ,


    Nova tecnologia, de baixo custo, é capaz de combater o Aedes aegypti em ambientes inóspitos. FM/UFMG

    Parceria do campus Saúde com o Departamento de Química do ICEx possibilitou a criação de nova tecnologia, de baixíssimo custo, capaz de combater larvas e ovos do mosquito Aedes aegypti mesmo em águas extremamente sujas, como a de esgotos. Trata-se de uma pastilha feita com tijolo de cerâmica tratado quimicamente, que é eficaz em locais inóspitos, como bueiros e ralos, onde não há luz ou água limpa. O larvicida, desenvolvido por equipe coordenada pelo professor Jadson Belchior, tem reduzido, em mais de 80%, a população do mosquito transmissor da dengue, chikungunya e zika no campus Saúde.

    O dispositivo foi criado a partir de uma demanda do campus, que tem os bueiros como principal foco de proliferação desses vetores. Esse comportamento foge do habitual, uma vez que o Aedes aegypti costuma depositar ovos em recipientes com água limpa.

    “Nas unidades do campus, os vasinhos de plantas foram reduzidos. O mosquito provavelmente está fora dos prédios e migrando para dentro. Os bueiros acumulam água parada e nutrientes gerados por folhas secas. E  é justamente disso que os ovos precisam para virar larvas”, detalha Jadson Belchior. 

    A pesquisa foi iniciada no começo deste ano, em continuidade a estudos desenvolvidos no ano anterior, também em parceria com o campus Saúde. Essas pastilhas têm como suporte uma cerâmica, que é impregnada com moléculas nocivas à larva, mas com nível de concentração que não faz mal ao ser humano.

    Larvicida reduziu a população do mosquito transmissor da dengue, chikungunia e zika em mais de 80% em todo o campus Saúde.

    Equipe do laboratório. Da direita para a esquerda: Professor Jadson Belchior, Geison Voga (pós-doutorado), Isabela Cristina Menezes de Freitas (iniciação científica) e Leonardo Schiavo de Rezende (pesquisador). FM/UFMG

    O material larvicida é liberado de forma lenta e controlada quando entra em contato com a água, por cerca de 6 a 7 semanas, o que inibe o desenvolvimento dos ovos na fase larvária, impedindo-os de eclodir ou matando as possíveis larvas que eclodiram. Assim, o processo reduz drasticamente a proliferação dos mosquitos em locais inóspitos como bueiros, bocas de lobo, sifões de pias e ralos, que costumam acumular água no fundo.

    A tecnologia também consegue eliminar larvas e ovos de outros mosquitos que se originam em fase aquática, como o vetor da malária e febre amarela, além de inibir a proliferação de escorpiões e baratas como efeito colateral, afastando-os dos locais onde o larvicida é colocado.

    Confira no vídeo abaixo a ação da nova tecnologia. Em aproximadamente 2 horas as larvas são eliminadas:

    Belchior explica que a pastilha foi criada a partir de outra tecnologia também desenvolvida sob sua coordenação, em parceria com a Vértica Tecnologia e Inovação Ltda, e já patenteada pela UFMG.

    “Reestruturamos o projeto que tínhamos de tijolos para água potável e com substância atóxica e fotocatalítica, isto é, ativada através da radiação solar. A partir dessa experiência, criamos outro dispositivo que libera de forma controlada e não precisa de luz, apenas da presença de água para ser ativado”.

    Sachês com cerca de quatro pastilhas cada foram instalados em 85 bueiros próximos a lâminas de água ou em contato com elas. “Se o nível de água sobe, alcança o sachê, e o material larvicida começa a atuar. Não importa a quantidade de água, o material libera o princípio ativo da substância nocivo à larva”, explica o professor.

    Todo o material tem custo bastante reduzido e acessível ao uso para a população. Para se ter uma ideia, cada sachê tem custo aproximado de R$1. 

    Monitoramento

    Para garantir a eficácia do novo dispositivo, é feito monitoramento semanalmente, por meio da coleta de água dos bueiros com água parada ou com fluxo contínuo de água proveniente de minas. “Quando a gente percebe que está passando as seis semanas, trocamos todos os materiais”, conta o professor Jadson Belchior.

    Monitoramento em bueiros do campus Saúde. Foto: Carol Morena

    Ele explica que monitoramento da proliferação do Aedes aegypti é feito por outro projeto, o “Controle de Aedes na UFMG”, que é iniciativa da Pró-reitoria de Administração da UFMG, por meio do Departamento de Gestão Ambiental (DGA), em parceria com o Laboratório de Inovação e empreendedorismo em Controle de Vetores (Lintec).

    Esse projeto é orientado pelo professor do Departamento de Parasitologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, Álvaro Eduardo Eiras, e tem dezenas de armadilhas GAT (Gravid Aedes Trap) distribuídas pelo campus Saúde, bem como todo o campus Pampulha, para capturar o inseto. As armadilhas recebem vistorias semanais para coleta dos mosquitos capturados, que são enviados para análise em laboratório, que verifica se estão infectados com dengue, zika ou chikungunya.

    “Esses dois projetos se complementam. Monitorar milhares de bueiros é complicado, e os tijolos ajudam a combater criadores em locais que acumulam água de chuva. E conseguimos acompanhar a efetividade dos tijolos com a captura dos mosquitos”, enfatiza o diretor do DGA, Tulio Vono Siqueira.

    Cada sachê tem cerca de quatro pastilhas. FM/UFMG

    Menos Aedes

    Os dados de monitoramento de mosquitos mostraram que o maior número de vetores capturados coincide com o período em que o material larvicida está perdendo eficácia. Ou seja, se a ação do dispositivo diminuiu, a proliferação do Aedes aumenta. No período chuvoso, por exemplo, de janeiro a março, o número de mosquitos Aedes reduziu de 64 para 13 em todo o campus Saúde, semanas seguintes à troca de material.

    “É muito mais fácil combater o ovo e a larva porque sabemos onde encontrá-los, do que tentar eliminar depois que se transformam em mosquitos e podem voar para qualquer lugar”

    Expansão

    Segundo Belchior, a nova tecnologia está em processo de patenteamento pela Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica (CTIT) da UFMG e pode ser expandida para outras áreas da cidade. “A tecnologia que já foi panteada pode ser usada dentro das residências, uma vez que você pode manusear e até ingerir a água (potável) contendo o material sem nenhum risco à saúde. Já esse novo tijolo pode ser usado em áreas externas, em locais inóspitos. Então, eles se complementam”, indica. 

    O professor também conta que o desafio agora é criar um dispositivo que seja biodegradável, para não gerar lixo, atóxico (com uso interno e externo) e que possa também atuar nas paredes dos bueiros, onde também há deposição de ovos de mosquitos.

    (Matéria da Faculdade de Medicina publicada também no Boletim UFMG/Edição 281)