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Baixa cobertura vacinal e desmatamento podem explicar surto de febre amarela


Publicado em: ExternasSaúde - 6 de fevereiro de 2018

Carol Prado*

 

O professor aposentado do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, Dirceu Bartolomeu Greco, em entrevista, tira dúvidas e esclarece pontos pouco abordados sobre a febre amarela, transmitida pela picada dos mosquitos transmissores infectados. De acordo com o Ministério da Saúde, a doença tem importância epidemiológica por sua gravidade clínica e potencial de disseminação em áreas urbanas infestadas pelo mosquito Aedes aegypti.

Confira a entrevista do professor e saiba mais sobre a vacina fracionada, limite de idade para imunização, efeitos adversos da vacina, ciclos silvestre e urbano, identificação e tratamento da febre amarela.

 

Como funciona a vacina da febre amarela?
É uma vacina com o vírus atenuado, o que traz algumas vantagens e desvantagens. A vantagem primária é que a pessoa está recebendo o vírus enfraquecido e o sistema imunológico responde melhor dessa forma, recebendo o vírus “inteiro”. Ou seja, não é o vírus morto ou anticorpos a ele, é o próprio vírus. A desvantagem é que, por ser vírus vivo, existe o risco pequeno da chamada reação vacinal. Em certas fases da vida, os extremos, pessoas muito jovens ou muito velhas, pode haver a reação vacinal, que é a infecção pelo vírus. Por isso que hoje se define muito bem quem pode ou não tomar a vacina: não podem ser vacinadas crianças muito pequenas, e idosos acima de 60 anos devem ser avaliados caso a caso.

A vacina é indicada para populações de regiões com casos da doença. Foto: reprodução – Pixabay.

Qual o risco da reação vacinal?
O risco da vacina é pequeno, mas se a pessoa vive em uma área onde não há febre amarela o risco da vacina é maior do que o risco da febre amarela. Portanto, ela deve ser utilizada em situações em que há risco de infecção. Claro, estamos vivendo um surto complexo, com casos em vários locais, o que acaba diminuindo o risco relativo da reação vacinal. A possibilidade de reação vacinal e o risco real de infecção por febre amarela têm de estar claros para todos e ser bem explicado nos locais de vacinação. Os profissionais de saúde têm que perguntar e procurar saber da saúde e imunidade geral das pessoas e, se for acima de 60 anos, deve solicitar uma avaliação mais detalhada antes de administrar a vacina.

A vacina tem efeitos adversos?
Os efeitos adversos são os mesmos de qualquer vacina com o vírus vivo. A pessoa pode sentir mal-estar e dor local de 24 a 36 horas após a vacinação. São efeitos passageiros. Na maior parte das vezes a vacina é extremamente bem tolerada.

O que é a vacina fracionada e como ela funciona?
A dose habitual da vacina da febre amarela é 0,5 ml. Essa foi a dose usada durante muitos anos, mas foi mudada por razões operacionais. Aconteceu um surto enorme no Congo em 2016 e a Organização Mundial de Saúde (OMS) resolveu avaliar se era possível administrar uma dose menor. Ficou demonstrado cientificamente que 1/5 da dose, 0,1 ml, é capaz de imunizar uma pessoa. Não se tem certeza se a durabilidade dela é igual a da dose habitual, mas já mostraram que as pessoas vacinadas com a dose fracionada estão devidamente imunizadas pelo menos por oito anos. Pode ser que dure mais, e para se estabelecer essa durabilidade é preciso uma quantidade de pessoas que tomaram a vacina anos atrás para fazer testes. O grupo de pessoas que tomou a vacina fracionada há mais tempo são oito anos e pouco. Fizeram exames e mostraram que essas pessoas ainda estão imunes. Então ela funciona, pelo menos por um tempo longo suficiente para que nós passemos por esse surto da doença.


Por que a vacina fracionada está sendo utilizada?
Dois anos atrás havia uma cobertura vacinal de 45% da população. Fez-se um esforço e hoje temos 85% de cobertura. A produção da vacina aparentemente é aquém da necessidade para imunização de mais de 90% da população exposta, porém nem todas as pessoas necessitam da vacina. Não tem que correr para os postos de saúde se não existir relato de febre amarela nas proximidades. É bom estar imunizado, mas não há necessidade de entrar em pânico. A vacina é indicada, principalmente, em locais onde apareceram casos.

Há algum fator que influenciou o surto da doença?
Certamente é um cenário multifatorial. Uma das razões do surto estar acontecendo em humanos, num local onde há febre amarela silvestre, é a baixa cobertura vacinal. A outra está relacionada com a proximidade cada vez maior que as pessoas estão de áreas silvestres. Com esse processo de urbanização, as cidades cresceram e chegaram até as bordas de matas, o que aumenta as chances de entrar em contato com aquele local onde circula normalmente a febre amarela silvestre. A febre amarela silvestre é transmitida por um inseto diferente e o macaco é hospedeiro como a gente, então ele não transmite. O macaco é importantíssimo, pois atua como um sentinela epidemiológico. Se aparece um macaco morto é importante saber se é devido à febre amarela e, se for, tem que vacinar as pessoas daquela região.

Apareceu uma possibilidade de que essa tragédia ambiental de Mariana tenha feito parte do processo de surto de febre amarela. Aparentemente não dá para ligar uma coisa com a outra porque a história do surto de febre amarela é nacional, não seguiu o caminho do rio doce. Mas é claro que locais onde a mata foi muito destruída existe a chance de diminuir os predadores naturais do mosquito. Se diminui a mata, concentra a quantidade de macacos. O inseto portador do vírus está circulando. O ser humano entra na história e pode trazer o vírus da febre amarela para a cidade. O maior risco que se têm atualmente é o de a doença tornar-se urbana. Por isso a vacina é tão importante.

Como identificar os sintomas da doença como febre amarela?
Tem muitas coisas que se associam. Estamos numa fase em que o Brasil tem febre amarela em vários locais. Um médico que vai atender uma pessoa que está com sintomas muito comuns a viroses tem de avaliar a possibilidade de febre amarela.

O paciente pode sentir com mal-estar, com febre, sintomas gastrointestinais, que não são sintomas específicos da febre amarela. Entretanto, em área que tem casos de febre amarela, o profissional de saúde deve estar atento para isso, colocando acima das outras possibilidades. Dengue também, além da zika, chikungunya e vírus diversos. Até o vírus da hepatite pode ter uma fase aguda onde se tem sintomas inespecíficos. É preferível pecar por excesso numa situação como essa e buscar primeiro excluir a possibilidade de febre amarela, para depois pensar em outras patologias.

Além da vacinação, há outras formas de prevenção?
É possível evitar que a pessoa seja picada pelo mosquito. Existem várias maneiras, que são as mesmas da dengue, como ficar em ambiente com telas e usar repelente com a frequência recomendada pelo fabricante, além de ajudar a impedir que o mosquito se reproduza. A mesma forma de prevenção de picada por Aedes aegypt é semelhante ao Haemogogus sabethes, que é o que transmissor de febre amarela na região silvestre.

Por que há tantos óbitos? É uma doença difícil de ser tratada?
Como não tem tratamento para a doença por algumas pessoas que desenvolvem um quadro letal. Começa a ser discutida agora a possibilidade do surgimento de medicamentos, mas isso ainda é muito precoce. Na febre amarela, como em outras patologias transmitidas por insetos, que são viróticas, há o percentual de pessoas que tem uma infecção branda. Quem desenvolve infecção grave, no caso da febre amarela, tem uma taxa de mortalidade alta. No Brasil está chegando a 60%. Há, recentemente, a preocupação de acompanhar mais de perto os pacientes graves da doença, com ações como internação em CTI, e avaliação para contrabalançar os efeitos graves. O vírus é um hepatotrópico, ou seja, tem afinidade com o fígado, e pode destruir o órgão. Já há alguns casos de transplante de fígado devido a um quadro grave de febre amarela.

Há um fator que explique a migração da doença no país?
A febre amarela silvestre é endêmica no Brasil. Ela não está num lugar só. Não se sabe ainda por que o surto está tão intenso. O fato de haver febre amarela silvestre circulando no país já se sabe há muito tempo, e existem fatores que estão facilitando que essa febre silvestre atinja pessoas que estão expostas ao local onde há o vírus, já  como mudança de hábitos, desmatamento, proximidade da área urbana da silvestre, entre outros.


O professor Marcus Polignano comentou, em
entrevista para a CBN, que é possível estarmos vivendo uma epidemia urbana da doença. O Aedes aegypti pode se tornar um vetor?
Isso é um risco que já se tem falado há algum tempo. Esse processo de passar da febre silvestre para urbana tem uma fronteira muito tênue. Sabemos que apesar de o vetor da febre amarela silvestre ser diferente da febre amarela urbana, o Aedes Aegypt tem a capacidade de transmitir a febre amarela. Se os casos começam a aparecer em áreas próximas a regiões urbanas, onde as pessoas são infectadas na região silvestre e vem para as cidades e seus diagnósticos forem feitos com dificuldade, ou podem até ser pouco sintomáticos, há o risco da pessoa infectada ser picada pelo Aedes aegypti, e o Aedes aegypti ser infectado e passar a transportar o vírus.

O que parece é que a chance de se tornar urbana agora é menor, pois a fase pior não é exatamente a que vivemos. Agora temos a disseminação da vacina, as pessoas estão recorrendo a ela. Houve uma fase em que a população não estava tão atenta e o serviço público chegou a dizer que talvez o surto tivesse acabado. O risco existe porque não há uma fronteira para o mosquito. Talvez isso seja um aviso: as pessoas precisam ter acesso à vacina e informação.

 

*Redação: Carol Prado – estagiária de jornalismo
Edição: Mariana Pires

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