Faculdade de Medicina

Universidade Federal de Minas Gerais


Pesquisa traçou perfil epidemiológico socioeconômico de crianças e adolescentes em terapia renal

Jayne Ribeiro*

Celina Rezende: “atenção interdisciplinar é essencial para a adequação dos pacientes no tratamento”. Foto: Carol Morena

Uma pesquisa realizada com crianças e adolescentes em terapia renal substitutiva, no Centro de Nefrologia da Santa Casa de Belo Horizonte, mostrou a importância do atendimento interdisciplinar para melhores resultados do tratamento da doença renal crônica (DRC). O trabalho é da assistente social, Celina de Faria Rezende, e o primeiro do Brasil a incluir a análise socioeconômica de pacientes com a doença.

Os resultados foram apresentados como dissertação de mestrado, defendida junto ao Programa de Pós Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da Faculdade de Medicina da UFMG.
A pesquisadora afirma que o principal objetivo foi traçar os diferentes perfis dos pacientes. O perfil epidemiológico engloba a doença de base e o que levou à morte. O perfil clínico é a análise dos exames, que mostra o resultado do tratamento em curso. “O inovador deste estudo foi à análise do perfil socioeconômico. Foram estudadas a renda per capita e a estruturação das famílias, de forma abrangente”, explica.

De acordo com Celina, além do estudo da renda e constituição da família, foram analisados fatores como quem é o cuidador da criança e se ela frequenta ou não a escola. “A análise mostrou que a atenção interdisciplinar é essencial para a adequação dos pacientes no tratamento, uma vez que a doença culmina em consequências na vida pessoal e social dessas crianças e adolescentes”, destaca a assistente social.

DRC e perfil socioeconômico
Segundo Celina, a doença renal crônica consiste no mau funcionamento dos rins, que promove perda das funções regulatórias, excretórias e endócrinas, comprometendo, essencialmente, todos os outros órgãos do organismo. Esta doença pode ser hereditária, genética ou adquirida.

Mau funcionamento dos rins compromete outros órgãos do organismo. Foto: Reprodução Fenapar [fenapar.com.br]

A assistente social explica que o adulto pode ficar anos em um tratamento conservador, que consiste no controle da alimentação e no uso de medicamentos, se mantiver um acompanhamento com um médico nefrologista. Já no caso da criança que nasce com a patologia, a maioria é submetida ao tratamento de diálise e, posteriormente, ao transplante. Por isso, para Celina, a análise do núcleo familiar, englobando as questões socioeconômicas, é importante. “A criança ou adolescente vai estar acompanhada do pai ou da mãe. Então, é necessário entender o universo em que estão inseridos, para que haja uma melhor adequação ao tratamento”, pontua.

A partir da premissa da necessidade de compreender melhor o universo do tratamento da DRC especificamente com crianças, a assistente social analisou e elaborou um banco de dados, proveniente dos prontuários médicos das 82 crianças e adolescentes entre zero e 17 anos e 11 meses, que estavam em terapia renal substitutiva do Centro de Nefrologia da Santa Casa de Belo Horizonte. O local escolhido é referência no estado de Minas Gerais e é onde Celina trabalha. As informações utilizadas correspondem ao período de julho de 2008 a julho de 2016.

A partir disso, foi possível identificar que a maioria das crianças em tratamento da doença renal crônica no Centro de Nefrologia da Santa Casa é de baixa renda. “Em mais de 90% dos casos, a família dos nossos pacientes pediátricos tem uma rena mensal de até um salário mínimo. Todas essas crianças e adolescentes fazem tratamento pelo SUS e mais de 93% estavam cadastradas no Centro de Saúde”, comenta Celina.

Celina também relata que, muitas vezes, essas crianças têm limitações físicas, além de traumas psicológicos, em decorrência da doença renal crônica. “A doença gera alteração no metabolismo do paciente e, por isso, essas crianças e adolescentes têm dificuldade de crescimento e sofrem muitas fraturas ao longo da vida. Consequentemente, o paciente poderá ter desajustes sociais”, ressalta.

Tratamento interdisciplinar
Celina defende a prevenção como peça fundamental na redução do impacto da doença para a população pediátrica. O acompanhamento precoce, por exemplo, por meio da realização de pré-natal adequado e exames de boa qualidade, pode identificar a doença ainda no feto e possibilitar um encaminhamento adequado. A criança, então, começaria o tratamento logo ao nascer e, assim, retardaria o começo da diálise, que é um tratamento desgastante para o paciente e sua família, de acordo com a assistente social.

Desta forma, para Celina, é necessária uma atenção interdisciplinar, tanto no pré-natal, como no tratamento, por meio do acompanhamento de psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais e nefrologistas. “O acompanhamento interdisciplinar, por meio da atenção de diferentes profissionais, garante que a criança e a sua família sejam assistidos em todos os processos e aspectos do tratamento”, argumenta.

Ela ainda destaca que o atendimento interdisciplinar é importante, não apenas para a população pediátrica, como também para os pais, que têm dificuldade em aceitar e lidar com a doença. “Os pais não têm culpa da doença, mas adotam este sentimento muitas vezes, o que pode dificultar o tratamento do filho”, expõe.

Celina acrescenta que, por não poderem comer diversos alimentos como sopa ou algumas frutas, por exemplo, nem tomar muito líquido, as crianças em tratamento têm uma qualidade de vida prejudicada. “É muito difícil para uma criança ver um coleguinha comer alguma coisa e não poder fazer o mesmo. E é difícil para os pais”, continua. “Por isso, é essencial que esses pais também tenham um acompanhamento profissional de um psicólogo, um nutricionista e um assistente social, para o suporte necessário na adequação da vida familiar ao difícil tratamento do paciente”, conclui.


Tema:
Perfil epidemiológico das crianças e adolescentes em terapia renal substitutiva no Centro de Nefrologia da Santa Casa de Belo Horizonte

Nível: Mestrado

Autora: Celina de Faria Rezende

Orientadora: Maria Goretti Moreira Guimarães Penido

Coorientadora: Mariângela Leal Cherchiglia

Programa: Ciência da Saúde- Saúde da Criança e do adolescente

Defesa: 24 de abril de 2017

 

Redação: Jayne Ribeiro – estagiária de jornalismo
Edição: Deborah Castro

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