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Saúde do homem deve ir além do câncer de próstata

Professor de medicina de família e comunidade ressalta pontos que merecem atenção dos homens


    28 de novembro de 2019 - , , ,


    Dificuldade em falar sobre emoções e isolamento social podem gerar adoecimento em homens. Foto: Carol Morena.

    A campanha “Novembro Azul” traz para o debate público a saúde do homem, mas, muitas vezes, esse tema é reduzido ao câncer de próstata. O professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, Nathan Souza, defende a ampliação do entendimento do que é o tema. Isso porque os homens exigem atenção diferenciada do serviço de saúde, pois habitualmente se cuidam menos.

    Não é comum a procura pela Atenção Básica e, por isso, homens buscam o sistema com casos já complicados. “Os homens ou não vão ao sistema de saúde, ou vão em número muito reduzido”, pontua. “Quando procuram o sistema já estão com descompensação de problemas, como diabetes, hipertensão, infartando e com obesidade”, exemplifica.  

    Nathan assegura que esse distanciamento do sistema de saúde se deve ao machismo. Isso porque ter maior cuidado consigo não é considerado próprio da masculinidade. “O homem é praticamente proibido de falar de seus sentimentos e o que são as sensações diante das situações”, conta. O professor indica aos homens se responsabilizar pelo autocuidado. “A ideia é que eles sintam, abracem, amem e não violentem”, continua. 

    O especialista também aponta a existência da diversidade entre os homens. Alguns são brancos, outros negros. Há também os homens cis e trans. Além das diferenças de idade. Por isso, a medicina de família e comunidade, especialidade do professor, propõe o atendimento mais íntimo desses indivíduos. “Ao olhar qualquer pessoa em qualquer ciclo de vida, precisamos considerar o biológico, os aspectos psicológicos e a saúde social dessas pessoas”, pontua.

    Caso a caso

    O especialista defende que os profissionais da Atenção Primária devem acolher bem os homens no serviço de saúde, pois eles geralmente não o procuram. “Precisamos prover acolhimento e respeito. Fazer perguntas sobre o que ele está sentindo, o que o levou a consulta e as expectativas em relação ao serviço”, explica.

    A partir da escuta atenta dos pacientes podem ser identificadas suas necessidades. “Elas podem ser, por exemplo, os principais fatores de risco que acometem os homens e acarretam adoecimento, como o tabagismo, o uso excessivo de álcool, as violências”, afirma.

    O professor também ressalta as questões gerais acerca da saúde do homem. “Precisamos rastrear a hipertensão arterial para os homens acima de 18 anos, dislipidemias (alteração do colesterol) a partir da 3ª ou 4ª década de vida, e rastrear para sofrimento mental”, destaca. Nathan propõe essas ações de rastreamento por seus efeitos serem pertinentes e terem evidências científicas. 

    Preocupação nacional 
    Desde 2009, a saúde dos homens recebe maior atenção do sistema de todo o país. Nesse ano foi criada a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH). O foco é o acesso à saúde de qualidade dos homens de 20 a 59 anos de idade. A política tem cinco eixos principais. O professor explica a necessidade de cada um deles:

    1- Acesso e acolhimento: Os homens e os adolescentes do sexo masculino raramente procuram o serviço de saúde para falar sobre seu estado biológico, social, psicológico e espiritual.

    2- Saúde sexual e saúde reprodutiva: Há aumento de jovens com HIV, sífilis, gonorreia e outras IST’s. Há também aumento do HIV entre a população idosa. Além disso, tem a questão de como vivenciar a sexualidade de forma segura, protegida, respeitando a parceira ou parceiro. 

    3- Paternidade e cuidado: Debater como ser um pai ativo e responsável. Como trabalhar isso na cabeça dos homens. Tudo isso se chama novo papel do pai, ou seja, maneira mais adequada de cuidar mais dos filhos. 

    4- Doenças prevalentes na população masculina: As doenças são um pouco mais o foco do novembro azul, que se restringe em questões como o de câncer de próstata. 

    5- Prevenção de violências e acidentes: O estereótipo de homem violento e agressivo é muito presente na nossa sociedade. O machismo impacta muito as estatísticas de violência. Discussões no trânsito, armamento, uso excessivo de força e envolvimento com brigas em locais públicos estão muito associados à masculinidade no Brasil.

    Escutar e entender

    Nathan ressalta o papel da escuta ativa na defesa da saúde dos homens. Para isso, é necessário que homens levem em conta as opiniões das mulheres e dos especialistas. “Temos muitos relatos, nos consultórios, de homens que estão com algum problema e o especialista passa de 10 a 15 minutos explicando o caso dele, mas ele não confia”, conta. “Contudo, se esse mesmo homem conversa com o colega que o aconselha a mesma coisa, ele aceita”, continua.

    “Hoje existem rodas de conversa de pais, por exemplo, para discutir a paternidade responsável, as masculinidades e outros assuntos. Procure na sua cidade se tem algum grupo de homens, para conversar e para desabafar. Para ir além da conversa sobre quem fez aquele gol, sobre política geral e amenidades”