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Aplicativos de controle de fertilidade devem ser vistos com cautela


08 de outubro de 2018


Aplicativos com objetivo de monitorar dias férteis podem ser uma opção para mulheres que buscam um método natural, mas ainda não são tão seguros quanto a pílula e o dispositivo intrauterino (DIU).

*Carol Prado

Muitas mulheres têm procurado alternativas à pílula anticoncepcional, buscando alívio dos efeitos colaterais que elas podem trazer. Em paralelo a isso, começam a surgir aplicativos, como o suíço Natural Cycles, que prometem monitorar os dias férteis da mulher, permitindo assim que ela saiba os dias mais propícios para uma gravidez.

Foto: Carol Morena.

Entretanto, a professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da UFMG, Ana Luiza Lunardi, alerta para riscos de se aderir a esse tipo de método. “O aplicativo deve ser visto ainda com muita cautela pela maioria das mulheres. Para que ele seja realmente eficaz na prevenção da gravidez é importante que a mulher siga precisamente as orientações quanto a abstinência sexual no provável período fértil” explica.

O aplicativo funciona a partir da medida de temperatura basal da mulher, ou seja, a temperatura logo após acordar. A medida deve ser feita com um termômetro de precisão, que tenha duas casas decimais, colocado sob a língua. “Nas mulheres, a ovulação determina um aumento de 0,3 a 0,5 graus Celsius no período. A temperatura basal pode ser utilizada como método contraceptivo na medida que o casal evite atividade sexual quando há o aumento da temperatura” conta a professora.

“O grande problema deste método é que o aumento da temperatura indicará que está ocorrendo ovulação. Considerando que o espermatozoide pode sobreviver de 48h a 72h após a ejaculação, caso a relação ocorra alguns dias antes da temperatura elevar-se, poderá ainda ocorrer fertilização e gravidez”, considera Ana Luiza.

Questionada sobre o futuro dos aplicativos, a professora acredita que eles terão seu lugar, mas não substituirão as pílulas anticoncepcionais. “Apesar de todo esse movimento ‘anti-hormônio’, as pílulas e outros métodos hormonais são seguros e eficazes para a maioria das mulheres”, diz. A professora afirma ainda que as mulheres precisam ser mais bem acolhidas e esclarecidas pelos médicos e equipes de saúde para que possam escolher o método que seja mais adequado a sua realidade.

Hormonais e não hormonais

A discussão em torno dos métodos contraceptivos hormonais e não hormonais aborda questões de saúde da mulher e adaptação dela ao método. Em alguns casos, o contraceptivo pode ajudar a diminuir cólicas e a tensão pré-menstrual (TPM), em outros, gerar diminuição da libido e aparecimento de vasos na pele.

“O maior risco relacionado à pílula é o componente estrogênico. O mais temido efeito adverso é a ocorrência de eventos trombóticos. Apesar de muito grave, essa ocorrência é rara para mulheres sem fatores de risco”, esclarece a ginecologista.

A professora diz que, nas vantagens de se utilizar um método natural, está a não existência dos efeitos colaterais mais comuns dos métodos hormonais, como dores de cabeça e náuseas. Entretanto, outros sintomas que podem ser incômodos para a mulher não serão tratados. “Mulheres que apresentam cólicas menstruais, enxaqueca no período menstrual, TPM, entre outros sintomas, não serão tratados com o método natural” conta.

*Carol Prado – estagiária de Jornalismo