Faculdade de Medicina

Universidade Federal de Minas Gerais


Estudo aponta que indivíduos alfabetizados tiveram maior integridade na conectividade estrutural cerebral

Karen Santos*

Uma pesquisa apontou a influência da alfabetização para a maior integridade estrutural cerebral no idoso e a relação da integridade estrutural com a memória. O trabalho é da neurologista Elisa de Paula França Resende, apresentado como dissertação de mestrado, defendido junto ao programa de Pós-Graduação em Ciências Aplicadas à Saúde do Adulto da Faculdade de Medicina da UFMG.

mão idoso“Existem várias pesquisas avaliando o funcionamento cerebral do idoso, mas a maioria delas conduzida em países desenvolvidos com população de alto nível educacional”, aponta Elisa. “O objetivo do trabalho foi avaliar a estrutura cerebral do idoso com baixo nível educacional, uma vez que o número de idosos nessa condição vem crescendo nos países em desenvolvimento”, continua.

 

Reserva Cognitiva

Os 31 idosos analisados na pesquisa foram selecionados de um estudo de base populacional sobre envelhecimento cerebral, conduzido na cidade de Caeté, em Minas Gerais, no ano de 2009. Desse total, dez eram analfabetos e 21 tinham algum nível de escolaridade. Eles foram submetidos à ressonância magnética de alta resolução, o que permitiu a obtenção dos parâmetros de integridade estrutural cerebral. A integridade da estrutura cerebral é o que determina a condição saudável das habilidades cognitivas do indivíduo.

“Primeiro nós correlacionamos o desempenho no teste de memória com parâmetros da integridade estrutural”, explica a neurologista. “Depois fizemos a comparação de grupos, contrastando as diferenças nesses parâmetros entre o grupo alfabetizado e o analfabeto”, completa.

De acordo com Elisa, os resultados mostraram que a integridade estrutural se relacionou com desempenho em testes de memória episódica, a memória para fatos recentes, que pode ser evocada de modo consciente, sempre que desejado. Essa relação se dá de forma direta, ou seja, se o individuo é alfabetizado, a estrutura cerebral é mais íntegra.

A pesquisadora também aponta que influências ambientais adquiridas na infância, quando a maioria dos idosos estudados foi alfabetizada, mostraram ter influência na estrutura cerebral mais de 70 anos depois. A maior integridade da conectividade estrutural dos indivíduos alfabetizados ocorreu em feixes de neurônios importantes para funções de linguagem e memória.

Segundo Elisa, o fato de um indivíduo ter mais integridade dos neurônios que fazem essa conexão sugere que ele tem melhor eficiência nessas funções e, caso sofra de uma doença neurodegenerativa, precisará de uma lesão maior para apresentar sintomas cognitivos. “Mesmo poucos anos de escolaridade, quando comparados com analfabetismo, parecem ser suficientes para interferir na integridade estrutural da substância branca cerebral”, afirma a especialista.

O papel da educação

Para Elisa, os dados refletem a importância do investimento em educação nos países em desenvolvimento, já que sair da condição de analfabetismo é suficiente para modificar a estrutura cerebral e pode contribuir para redução da incidência de doenças neurodegenerativas em longo prazo.

Ela defende, ainda, que o estudo traz uma importante contribuição para a teoria da reserva cognitiva, que é a capacidade do cérebro manter seu funcionamento normal apesar de lesões estruturais. “Acredita-se que essa reserva seja composta de características intrínsecas do indivíduo, como o tamanho do cérebro, mas também tenha componentes ativos como a escolaridade”, expõe Elisa.

 

Título: Conectividade estrutural cerebral, alfabetização e desempenho cognitivo em uma amostra de idosos da comunidade: estudo por análise de ressonância magnética utilizando imagens por tensor de difusão

Nível:  Mestrado.

Autora: Elisa de Paula França Resende

Orientador: Paulo Caramelli

Co-orientadora: Fernanda Freire Tovar-Moll

Co-orientador: Leonardo Cruz de Souza

Programa: Saúde do Adulto

Defesa: 9 de dezembro de 2015

*Redação: Karen Santos – estagiária de jornalismo
Edição: Deborah Castro

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