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Caso 51

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Paciente masculino, 31 anos, com queixa de dor em região malar direita de 3 anos de evolução. Apresenta odinofagia constante e dor à rotação do pescoço. Não há sinais de infecção. Exame otorrinolaringológico e palpação cervical sem alterações significativas.

Baseado no exame clínico e na radiografia de crânio ao lado, qual o diagnóstico?

a) Disfunção da articulação temporomandibular

25%

b) Fibromialgia

25%

c) Síndrome de Eagle

25%

d) Doença de Paget

25%
   

Análise da Imagem

Imagem 2

Imagem 2: Radiografia de crânio em perfil esquerdo, evidenciando alongamento dos processos estiloides bilateralmente (contornado em vermelho).

Diagnóstico

O conjunto de sintomas do paciente e os achados radiográficos sugerem o diagnóstico de síndrome de Eagle.

A radiografia em questão não evidencia nenhuma alteração sugestiva de disfunção da articulação temporomandibular, porém vale lembrar que exames radiológicos são pouco úteis na avaliação dessa articulação.

Muita vezes, a Síndrome de Eagle é diagnostificada erroneamente e tratada como fibromialgia – causa comum de dor musculoesquelética crônica. Contudo, a etiologia da fibromialgia é desconhecida e não gera alterações nos estudos laboratoriais e de imagens.

Na Doença de Paget há aumento da remodelação óssea, acometendo principalmente vértebras, ossos longos dos membros inferiores, pelve e crânio. Os achados radiográficos dependem do estágio da doença, e não se assemelham aos da radiografia em questão (saiba mais no Caso 17).

Discussão do caso

O processo estiloide é uma fina projeção óssea, normalmente menor que 3 centímetros, que se origina no processo timpânico do osso temporal, anterior ao forame estilomastoideo ao osso hioide pelo ligamento estilo-hioideo (figura 3). As artérias carótidas interna e externa se localizam de cada lado desse processo.

 

Imagem 3: Preparação especial evidenciando o processo estiloide, o ligamento estilo-hioideo e o osso hioide (a mandíbula foi removida).

 

O alongamento do processo estiloide ou a mineralização do complexo ligamentar estilo-hioideo é muito frequente, na maioria das vezes é bilateral (embora sintomas, quando presentes, comumente sejam unilaterais), com incidência muito variável na literatura (18-40%). Na maioria das vezes esse quadro é assintomático. Quando sintomático (4-10%), é denominado Síndrome de Eagle.

É mais comum em adultos e se apresenta como dor facial vaga, principalmente à movimentação da cabeça, deglutição ou abertura bucal. Pode estar associado à disfagia, disfonia, otalgia, dor de cabeça, sensação de corpo estanho na garganta e síncope transitória. O diagnóstico pode ser confirmado clinicamente com a palpação da loja amigdaliana após anestesia tópica, observando-se que tal manobra reproduz a dor referida pelo paciente.

Classicamente, a Síndrome de Eagle ocorre após uma amigdalectomia ou trauma cervical, sendo a dor precipitada pela fibrose adjacente ao processo estiloide decorrente do trauma prévio (segundo alguns autores, esse termo é reservado a essas condições). Os sintomas decorrem do atrito do processo mineralizado com as estruturas adjacentes: artérias carótidas e nervos cranianos V, VII, IX, X. Uma outra forma, não relacionada à amigdalectomia ou trauma prévio, é conhecida como síndrome artéria carotídea (ou síndrome estiloide), quando os sintomas decorrem da estimulação da cadeia simpática presente na parede destes vasos.

Muitas vezes, é necessário um exame de imagem para confirmação, sendo a Tomografia Computadorizada (TC) tridimensional a ferramenta diagnóstica de maior valor.

Diagnóstico diferencial inclui outras causas de cervicalgia, como fibromialgia, neuralgia do trigêmio ou do glossofaríngeo.

O tratamento depende da intensidade dos sintomas, variando desde tranquilizar o paciente a uso de antiinflamatórios, injeção local de corticoesteroides ou  excisão cirúrgica do segmento mineralizado. O paciente em questão foi submetido a este último tratamento, por acesso transoral, evoluindo sem intercorrências e sem as queixas relatadas previamente.

Aspectos relevantes

- O aumento do processo estiloide/mineralização do ligamento estilo-hioideo é comum (18-40% população em geral), embora apenas uma pequena parcela (4-10%) evolua com sintomas. Por essa razão, o diagnóstico jamais pode se basear apenas nos exames de imagem.

- A Síndrome de Eagle é uma rara causa de cervicalgia, com queixas inespecíficas e de difícil diagnóstico.

- Sintomas comuns incluem dor facial vaga, à movimentação da cabeça, deglutição ou abertura bucal.

- Exames de imagem são úteis no diagnóstico, com destaque para TC tridimensional

- O tratamento de escolha depende da intensidade dos sintomas, podendo-se optar pela excisão cirúrgica do ligamento mineralizado, que pode ser realizada por cervicotomia ou acesso transoral.

Referências

1. Piagko M, Anagnostopouou S, Kouladouros K. , Piagkos G. 2009. Eagle’s Syndrome: A Review of the Literature, Clinical Anatomy 22:545–558 
2. Alcalde RE, Ueyama Y, Nishiyama A, Mizuguchi T, Matsumura T,  Kishi K. 1994. Diagnostic imaging of Eagle’s syndrome: Report of  three cases. Oral Radiol 10:143–148. 
3. Bafaqeeh SA. 2000. Eagle syndrome: Classic and carotid artery types. J Otolaryngol 29:88–94.
4. Neville, BW e col. Patologia Oral & Macilofacial. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008
5. Uptodate.com

Responsável

Glauber Coutinho Eliazar, acadêmico do 8º período de medicina da UFMG. E-mail: glaubereliazar[arroba]gmail.com

Orientadores

Rafael Fernandes Goulart dos Santos, residente de Otorrinolaringologia do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora. E-mail: rafaelfgsantos[arroba]gmail.com

Gustavo Meyer de Moraes, cirurgião de Cabeça e Pescoço. Coordenador do programa de residência médica em Cirurgia de Cabeça e Pescoço do HC/UFMG. Mestre em cirurgia pela UFMG. E-mail: gustmeyer[arroba]gmail.com

Revisores

Fabiana Resende e Rafael Tavares.

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