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Por que os casos de sífilis aumentaram no país?


Publicado em: Aspas SonorasExternas - 5 de janeiro de 2017

Nos últimos anos, houve aumento de 19% do tipo congênito da doença, 21% nas gestantes e 33% dos casos de sífilis adquirida no Brasil

Bruna Leles*

Doença bacteriana que se espalhou pelo mundo no século XV, a sífilis permaneceu sem cura até a descoberta da penicilina. Apesar dos tratamentos eficazes e uma prevenção relativamente simples, foi registrado um aumento recente considerável dos casos no país – 33% de sífilis adquirida, segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde. Como foi veiculado no programa de quarta-feira da série “Sífilis em Evidência”, produzida pelo Saúde com Ciência, sua principal forma de contágio é pela relação sexual.

Relação com Aids e população jovem

O professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, Dirceu Greco, aponta semelhanças entre a sífilis e o vírus HIV/Aids que vão além das formas de contágio, e alerta para a maior facilidade de transmissão da primeira doença:

 

O vírus da imunodeficiência humana, também conhecido como HIV, ataca o sistema imunológico do indivíduo, responsável por proteger o corpo humano das doenças em geral. As pessoas que desenvolvem a doença ficam vulneráveis aos ataques externos de microrganismos ou outras enfermidades. A Aids atingiu seu ápice, em escala global, na década de 1980, infectando principalmente homossexuais e hemofílicos. Segundo Dirceu Greco, é possível perceber traços em comum no comportamento, principalmente dos jovens, em relação à sífilis, Aids e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs):

 

Hoje, ao contrário dos anos 1980, boa parte da população jovem é indiferente aos perigos da sífilis e outras ISTs. Naquela época, o vírus HIV/Aids era desconhecido e praticamente mortal, o que fez com que toda uma geração adquirisse hábitos preventivos. De lá pra cá, com o aprimoramento de tratamentos efetivos para controle do vírus, abriu-se caminho não só para um novo aumento dos casos da doença, mas ainda para a maior ocorrência de outras ISTs, como a sífilis. Quem também comenta essa “despreocupação” atual dos adolescentes é a professora aposentada do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade, Edna Maria Lopes:

 

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Uso das camisinhas masculina e feminina previne a sífilis e demais ISTs. Foto: Carol Morena

Negociação do risco e empoderamento da mulher

Outro fator comportamental que está ligado à alta taxa de infecções por ISTs está no processo de chegada ao ato e na relação estabelecida entre os indivíduos que irão fazer sexo. Na maioria das vezes, não há a devida preocupação com a saúde do parceiro, de modo que a prevenção adequada é negligenciada. O professor Dirceu Greco fala sobre como ocorre a “negociação” do risco de infecção nas relações contemporâneas:

 

Mais uma questão possivelmente relacionada ao aumento dos casos de sífilis e a perpetuação de ISTs como a Aids no mundo é o estigma do machismo que prevalece na sociedade. Há, ainda, um questionamento social diferenciado sobre vida sexual ativa, parceiros diversos ou relações casuais de acordo com o sexo do indivíduo. Neste tratamento não igualitário, é comum que mulheres não tenham o hábito de andar com preservativos:

 

ISTs não “escolhem” gênero ou opção sexual. É importante, portanto, que todos os indivíduos se previnam adequadamente durante o ato sexual, ignorando estigmas e preconceitos ainda enraizados na sociedade brasileira.

ASPAS SONORAS

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As “Aspas Sonoras”, nova produção do Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da UFMG, ampliam a discussão sobre os temas abordados nas séries realizadas pelo programa de rádio Saúde com Ciência. As matérias apresentam áudios e textos inéditos daquilo que foi apurado durante as produções.

A série “Sífilis em Evidência” foi ao ar entre os dias 28 de novembro e 2 de dezembro de 2016. Nela, foram tratados assuntos como as fases da infecção, principais formas de contágio, diagnóstico, tratamentos e medidas para prevenir a sífilis.

*Editado por Lucas Rodrigues

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