Faculdade de Medicina

Universidade Federal de Minas Gerais


Estudantes que trancaram curso de Medicina têm até vinte e nove vezes mais risco de evasão

Ives Teixeira Souza*

Foto: Carol Morena.

Combater os altos índices de abandono dos cursos superiores é uma das metas do Ministério Educação, que considera a evasão um dos principais problemas da educação superior no Brasil. Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), houve um crescimento na taxa de abandono do curso de ingresso, de 11,4%, para 49%, em 2014.

Para tentar desvendar a relação entre os trancamentos e a evasão dos alunos, a enfermeira Maria do Rosário Santos, pesquisadora do programa de Pós-Graduação em Promoção de Saúde e Prevenção da Violência da Faculdade de Medicina da UFMG, desenvolveu dissertação sobre os laudos periciais dos estudantes da área de Saúde da UFMG. “O acompanhamento das dificuldades que os alunos enfrentam no percurso acadêmico despertaram em mim a vontade de compreender melhor o sofrimento e o processo de adoecimento deles, bem como o suporte que a universidade disponibiliza para eles”, afirma Maria do Rosário.

Perícia médica
A pesquisadora analisou os laudos das perícias médicas realizadas pelo Departamento de Atenção à Saúde do Trabalhador (Dast) em alunos dos cursos de Biomedicina, Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Gestão de Serviços de Saúde, Medicina, Nutrição, Odontologia, Curso Superior de Tecnologia em Radiologia e Terapia Ocupacional, para concessão de regime especial, quando há impossibilidade do aluno frequentar atividades escolares, sem prejuízo da formação acadêmica, e trancamento de matrícula, no período de agosto de 2009 a junho de 2015.

“A perícia médica é realizada a partir da solicitação do colegiado do curso que o aluno está matriculado, sendo que o exame pericial considera os laudos dos médicos assistentes ou de psicólogos trazidos pelo aluno. Então, o resultado da perícia é enviado ao colegiado para os encaminhamentos adequados”, esclarece Maria do Rosário, sobre o funcionamento do processo pericial na UFMG.

Trancamento
Farmácia e Medicina foram os cursos da área de saúde que mais encaminharam alunos para a perícia, com 30,8% e 29,6%, respectivamente, em um total de 92 laudos. O destaque é que, dos alunos de Medicina, quase a totalidade (96%) que realizou o exame solicitou o trancamento da matrícula.

Outro fator de relevância é a relação entre os números de trancamento e a expectativa de evasão dos estudantes, explica a enfermeira. Segundo a pesquisadora, alunos de Medicina que trancaram o curso pelo menos uma vez tiveram uma probabilidade quase nove vezes maior de evasão do curso do que aqueles que não o trancaram. Caso o trancamento ocorra mais de uma vez pelo mesmo aluno, a chance de evasão chega a 29%. “Para o aluno de Medicina que fez o trancamento de matrícula, as chances de evasão variam de 8,26 a 29,26 %, em comparação àquele que não trancou a matrícula”, conta.

Promoção da saúde
Como alerta Maria do Rosário, é preciso pensar que o trancamento de matrícula, para além de uma questão administrativo-acadêmica da gestão pedagógica, pode estar mascarando processos de adoecimento desses alunos, durante sua formação profissional, com consequências importantes na vida dessas pessoas e da instituição. “Ainda mais quando, de acordo com a pesquisa, 88,6 % dos alunos do curso de Medicina que fizeram as perícias médicas relataram algum tipo de sofrimento mental, com predominância de quadros depressivos e de transtorno de humor”, destaca Maria do Rosário.

Desse modo, a pesquisadora sugere a necessidade de intervenções direcionadas à promoção da saúde e à qualidade da saúde mental dos estudantes ao longo do processo de formação. “Atrasos por trancamento de matrícula e regime especiais, mais do que simples indicadores, devem ser considerados como problemas no ensino superior e, desse modo enfrentados nas suas diferentes faces”, conclui.

  

Título: Percurso acadêmico de alunos de graduação da área de saúde da UFMG: análise das perícias médicas realizadas entre 2009 e 2015.

Nível: Mestrado

Autora: Maria do Rosário Santos

Orientadora: Elizabeth Costa Dias

Coorientador: Eliane Dias Gontijo

Programa: Promoção da Saúde e Prevenção da Violência

Defesa: 18 de julho de 2016

*Redação: Ives Teixeira Souza – estagiário de jornalismo
Edição: Mariana Pires

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