Faculdade de Medicina

Universidade Federal de Minas Gerais


Pesquisa alerta para a necessidade de um tratamento multidisciplinar para que o reganho de peso não acometa pacientes que utilizaram o balão intragástrico (BIG)

 

Jayne Ribeiro*

Bruno Sander: acompanhamento multidisciplinar evita reganho de peso. Foto: arquivo pessoal

Pesquisa desenvolvida na Faculdade de Medicina da UFMG apontou que até dois terços dos pacientes que utilizaram o balão intragástrico (BIG) para perda de peso apresentaram um reganho de até 20% do peso perdido após a sua retirada. O estudo, realizado com 224 pacientes entre setembro de 2015 e maio de 2016, foi desenvolvido pelo endoscopista e cirurgião Bruno Queiroz Sander, e defendido como dissertação de mestrado junto ao programa de Pós Graduação em Ciências Aplicadas à Saúde do Adulto da Faculdade.

O médico, diretor do Hospital Sander Medical Center, onde a pesquisa foi desenvolvida, ressalta que uma das razões para investigar esse tema foi a percepção de que não existia nenhum estudo que avaliasse o reganho de peso dos pacientes em longo prazo, após a retirada do balão. “Existem vários estudos sobre a eficiência do balão intragástrico para a perda de peso, mas queríamos saber o depois, como o paciente tende a manter ou não o peso perdido após o tratamento”, explica.

Bruno Sander conta que foi possível determinar qual é o reganho de peso real dos pacientes que fizeram o uso do balão intragástrico, o que é inédito. “Além disso, sistematizamos e mostramos os fatores que propiciam o reganho, destacando a importância da participação de uma equipe multidisciplinar”, conta.

Balão Intragástrico
Bruno explica que o balão intragástrico é um procedimento endoscópico para perda de peso indicado para pacientes com o Índice de Massa Corporal (IMC) superior a 27 e, portanto, aconselhável tanto para obesos quanto para pessoas com sobrepeso. Nele, uma esfera de silicone no formato de um balão é colocada no estômago do paciente por até seis meses, reduzindo o apetite.

Segundo o médico, é um procedimento simples e rápido que dura cerca de 20 minutos e que não necessita de internação. “O procedimento é seguro, feito com a mesma sedação necessária para uma endoscopia. Nessa série estudada não tivemos nenhum relato de complicações, nem mesmo a intercorrência de algum paciente precisar ser internado, ou algo parecido”, conta.

O médico explica que as principais críticas ao procedimento são relacionadas ao reganho de peso após a retirada do balão, apesar da eficácia do método para a perda de peso.  Para ele, a pesquisa possibilitou demonstrar que este reganho, em números absolutos, é baixo. “Podemos verificar que a grande maioria dos pacientes consegue manter 80% do peso perdido, e isso é um resultado muito positivo”, avalia Bruno Sander.

Metodologia
Para a pesquisa foram selecionados pacientes residentes de Belo Horizonte que utilizaram o método do balão para perder peso por, no mínimo, cinco meses, que estão sem o BIG entre dois e cinco anos e que não tenham feito cirurgia de redução de peso após o uso do balão. Além do peso dos pacientes, hábitos comportamentais também foram considerados, já que poderiam influenciar os resultados.

Bruno ressalta que em seu trabalho é possível encontrar vieses quantitativos e qualitativos. “Analisamos números quanto à perda ou ganho de peso e também fatores como acompanhamento nutricional, psicológico, prática de atividades físicas, e os seus impactos nos resultados”, enumera.   Ele conta, por exemplo, que pessoas que não praticam exercícios físicos depois da retirada do balão demonstraram quase quatro vezes mais chance de reganhar peso, se passados quatro anos do tratamento, do que quem pratica.

Acompanhamento multidisciplinar
O endoscopista alerta para a necessidade de uma equipe multiprofissional em longo prazo para que o reganho de peso possa ser evitado. “Acompanhamento nutricional, psicológico e prática de exercícios físicos são os três fatores que mais influenciam no reganho de peso desses pacientes”, orienta.

Segundo ele, o risco de reganho de peso aumenta em mais de três vezes após três anos do tratamento com balão intragástrico, em pacientes que não tiveram acompanhamento com nutricionista após a sua retirada.
Para o médico, é fundamental adequar os protocolos em relação ao trato do paciente após o uso do BIG, já que é comum o abandono do acompanhamento e tratamento quando o balão é retirado. “Se o paciente quer manter o peso perdido é fundamental que ele continue o acompanhamento nutricional e psicológico por um período de pelo menos dois anos. Isso vai otimizar o resultado a longo prazo”, recomenda Sander.

Obesidade no Brasil e BIG
O pesquisador relata que de acordo com a última avaliação da Agência Nacional de Saúde (ANS), mais da metade da população brasileira está acima do peso. “A literatura demonstra que um paciente com 4,5 kg acima do peso ideal tem o risco de mortalidade aumentado em nove pontos percentuais. Os pacientes que colocam o BIG, em média, estão 9 kg acima do ideal, ou seja, têm o risco de mortalidade 20% maior do que de uma pessoa com o peso adequado”, alerta o médico. Ele ainda chama a atenção para as possíveis consequências da obesidade: “Pessoas obesas têm uma resistência maior a insulina, a hipertensão elevada, problemas articulares e ainda um risco maior de desenvolver doenças como câncer”, afirma.

Tema: Estudo do reganho de peso à longo prazo após o uso do balão intragástrico
Nível: Mestrado
Autor: Bruno Queiroz Sander
Orientador: Vitor Nunes Arantes
Programa: Pós-graduação em Ciências Aplicadas à Saúde do Adulto
Defesa: 26 de junho de 2017

*Redação: Jayne Ribeiro – estudante de jornalismo
Edição: Mariana Pires

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