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Conferência Magna debate a abordagem da dimensão espiritual no cuidado


Publicado em: CongressoExternas - 8 de agosto de 2017

Palestrante convidado apresentará panorama das pesquisas sobre saúde e espiritualidade, além da necessidade de abordar o cuidado às dimensões físicas e espirituais

Como é possível investigar cientificamente a espiritualidade e de que forma a prática clínica pode incluí-la no cuidado ao corpo?  Estes são alguns dos apontamentos que o professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e coordenador da sessão de espiritualidade e psiquiatria das associações Mundial e Brasileira de Psiquiatria, Alexander Moreira-Almeida, apresentará na Conferência Magna do 4º Congresso Nacional de Saúde. O evento acontece nos dias 28 a 30 e agosto, na Faculdade de Medicina da UFMG.

Segundo pesquisador, a maioria da população utiliza a religiosidade de forma saudável. Foto: Banco de Imagem

De acordo com o professor, na palestra “Cuidando do corpo e do espírito na promoção da Saúde”, será debatido o panorama das pesquisas existentes e a necessidade de atenção e cuidados às dimensões físicas e espirituais do ser humano. “A maioria da população do mundo tem alguma forma de religiosidade. Uma boa parte utiliza a religiosidade para lidar com problemas, dificuldades e adoecimento e, na maioria das vezes, o uso é feito de modo saudável”, explica.

De modo geral, Moreia-Almeida destaca que o maior envolvimento espiritual ou religioso do paciente está associado a menores níveis de depressão, suicídio e de uso de álcool ou outras drogas. Bem como, está associado a menor mortalidade e melhor qualidade de vida. “Mas, também há uso negativo da religiosidade. Vamos discutir sobre o uso saudável e não saudável dela. Além de colocar de que forma o clínico, enfermeiro ou psicólogo, por exemplo, podem abordar o tema em beneficio do paciente, respeitando os limites éticos”, esclarece.

Para o presidente do Congresso e diretor da Faculdade de Medicina da UFMG, Tarcizo Nunes, “há novas perspectivas para o tratamento do individuo e a Faculdade deve estar aberta a esse debate. Por isso, a Comissão Científica do Congresso escolheu um pesquisador da área para a Conferência Magna”. O coordenador do eixo “Práticas Integrativas e Complementares / Saúde e Espiritualidade” do Congresso, professor Rubens Tavares, completa dizendo que a importância de perceber o processo saúde-doença além de um órgão ou sistema doente existe há séculos e tem ganhado cada vez mais relevância na ciência ocidental.

“Há um crescimento de pesquisas que abordam questões como a influência da “saúde material” sobre a “saúde espiritual” e vice-versa”, afirma Tavares. “Não há como negar a importância do conhecimento material com seus grandes avanços no controle de doenças infectocontagiosas, por exemplo. Mas há uma sugestão de atuar conjuntamente de forma complementar”, continua.

Sobre o palestrante

Alexnder Moreira-Almeida começou o interesse e a pesquisa na área de espiritualidade, ciência e saúde há 22 anos, quando ainda era estudante de Medicina na UFJF e percebeu a necessidade de embasamento científico sobre as cirurgias espirituais. Depois de formado, continuou estudando espiritualidade durante sua residência e doutorado em psiquiatria na Universidade de São Paulo (USP). Em 1999, junto a outros psiquiatras da USP, fundou o Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos (Neper), o primeiro grupo oficial de pesquisa sobre o tema na área médica do Brasil.

Alexander Moreira-Almeida é psiquiatra, professor na UFJF e coordenador do Nupes. Foto: Arquivo pessoal

Seu pós-doutorado, em psiquiatria, foi realizado na Universidade de Duke, nos Estados Unidos, que, segundo Moreira-Almeida, é o principal centro de estudo do mundo na área de espiritualidade. Desde 2006 trabalha como professor na UFJF e há 11 anos fundou e coordena o Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde – UFJF.

Confira a entrevista com o pesquisador:

  • O que é o Nupes e como funciona?

A intenção do Núcleo, fundado no final de 2006, é fazer pesquisa séria, rigorosa e mais aberta, não dogmática, sobre espiritualidade e saúde.  Ele está ligado ao Programa de Pós-Graduação em Saúde da Faculdade de Medicina da UFJF e é um grupo interdisciplinar, com pessoas da área da Medicina, Psicologia, Enfermagem, Fisioterapia, Filosofia, Sociologia, Estatística e outras diversas áreas. Temos participação de alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado, bem como pesquisadores de pós-doutorado.

Há três linhas fundamentais de pesquisa.  Uma chama-se de Epidemiologia da Religião, ou seja, o quanto o nível religioso e espiritual das pessoas impactam sua vida, como mais ou menos níveis de depressão, qualidade de vida, mortalidade, etc. A outra é sobre experiências espirituais, que tenta entender fenômenos como transe e as experiências de quase morte, com estudos desde o ponto de vista psiquiátrico, neuropsicológico, neuroimagem, entre outros. Já a terceira linha é na área de história e filosofia das pesquisas científicas em espiritualidade.

Outra responsabilidade do Nupes é da divulgação científica, levando à população o conhecimento produzido com recurso público, inclusive pelo TV Nupes, um canal no Youtube que já tem três anos e conta com participação de pesquisadores do mundo inteiro sobre espiritualidade e ciência.

  • A ciência e a espiritualidade podem caminhar juntas? De que forma?

O primeiro aspecto é de que essa visão de que religiosidade e ciência estão sempre e necessariamente em oposição e conflito é um mito histórico.  Os pesquisadores de religião e ciência são unânimes em afirmar isso.

Sobre a segunda questão, a espiritualidade, assim como a arte ou a ciência, é uma forma de expressão humana. E uma não desautoriza a outra. São formas diferentes de abordar e perceber o mundo. São vivencias humanas complementares e não oposição. Além disso, ao longo da historia e na revolução cientifica, Isaac Newton e Galileu, por exemplo, tinham motivações religiosas para fazer as suas pesquisas. Eles diziam que, ao estudar a natureza, estavam estudando a obra de Deus. Ou seja, houve inúmeros pesquisadores, cientistas e filósofos, ao longo da humanidade, fazendo investigações científicas com motivações espirituais.

Outro ponto é que a ciência tem o objetivo de estudar as coisas que existem e acontecem. As experiências religiosas e espirituais são fenômenos existentes. Não há nenhuma civilização, ao longo da historia da humanidade, que não teve pessoas com experiências religiosas e espirituais. Por isso, isso também deve ser estudado, com respeito, seriedade e sem dogmatismo.

  • Como o tema de espiritualidade e ciência pode acrescentar à Universidade e aos profissionais presentes no Congresso Nacional de Saúde?

A primeira coisa é trazer o que está sendo discutido no mundo. Grandes universidades têm pesquisa nessa área, associações médicas têm grupos de estudo e discussão sobre o tema, então já é um assunto bem consolidado no ambiente acadêmico, mas pouco discutido no Brasil. Dessa forma, traremos uma discussão do que está acontecendo em todo mundo sobre isso, atualizando sobre o que está sendo produzido e publicado cientificamente.

Em segundo, é ajudar no papel da Universidade de treinar os profissionais de saúde, com o melhor das evidências, para ajudar a população. Nesse aspecto, sabemos que no Brasil, infelizmente, a maioria dos cursos na área da saúde não tem um treinamento sistemático de como abordar esse tema.

As evidências atuais dizem que quando se aborda a espiritualidade com o paciente, tende haver uma melhor satisfação e evolução dele. É preciso ajuda-lo a usar os recursos religiosos saudáveis e, talvez, ajudar a melhorar os recursos não tão saudáveis que ele tem. Por isso, na Conferência Magna, iremos apresentar quais são as diretrizes internacionais sobre isso.

  • Qual a relevância de trabalhar esse tema com bases científicas? Como a comunidade acadêmica enxerga a necessidade da base teórica?

Tem recebido muito bem. Há literalmente milhares de pesquisas publicadas com esse tema. É algo que tem gerado interesse e repercussão no ambiente acadêmico, justamente por perceber a necessidade de entender essa dimensão humana.

Muitas vezes, em algumas áreas do meio acadêmico, ainda é um tabu debater sobre espiritualidade. Mas é preciso que a ciência possa investigar livremente, buscando entender, do melhor modo possível, essas experiências e, no caso de nós clínicos, como podemos aliviar o sofrimento das pessoas e ajudá-las da maneira mais plena.

Por ser um tema que, tradicionalmente, não era discutido no ambiente acadêmico e que algumas pessoas apresentem resistência, é comum a cobrança pelo embasamento científico com rigor e exigência maior do que se fosse outro tema. Por um lado, isso é até positivo, já que garante a qualidade das pesquisas.

  • Como a abertura da visão científica sobre a espiritualidade pode proporcionar mais saúde, em questão de prevenção e promoção para população?

Esse é um grande desafio. Hoje, sabe-se que a espiritualidade, de modo geral, está associada a vários indicadores positivos de saúde. Um dos grandes desafios da pesquisa é descobrir qual o mecanismo, ou seja, de que forma a espiritualidade impacta.

Há varias hipóteses como a da religiosidade trazer suporte social, quando um grupo religioso se apoia mutuamente e as pessoas tem o sentimento de pertencimento. Outra explicação são os comportamentos mais saudáveis como menos uso de álcool e outras drogas ou comportamento sexuais de risco, etc. Além disso, as práticas como oração ou meditação têm efeito benéfico e há, ainda, a explicação da religiosidade dar sentido e propósito à vida e aos problemas enfrentados.

Congresso de Saúde
A 4ª edição do Congresso será realizada do dia 28 a 30 de agosto de 2017, na Faculdade de Medicina da UFMG, com o tema “Promoção da Saúde: Interfaces, Impasses e Perspectivas”.

O Congresso Nacional de Saúde é direcionado a um público multidisciplinar, composto de profissionais de diversas áreas da Saúde e correlatas, tanto do setor público quanto do setor privado, em especial professores, técnicos e estudantes, bem como agentes da saúde.

O 4º Congresso Nacional da Saúde integra ainda a programação das comemorações dos 90 anos da UFMG, celebrados em 2017.

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